Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Nós e eles

Posted by atrida em Terça-feira, Março 11, 2008

Em comentário ao meu postal intitulado “Velhopress”, o Corcunda refere que «há por aí uma tendência (a que tu não foges, caro Atrida) a falar de um “nós” que não existe. Como se pode fazer uma frente entre gente que diz coisas opostas? Como se podem juntar pessoas de esquerda, racialistas e conservadores (tradicionalistas, monárquicos, etc.) sem que exista uma parte grande a submeter-se a coisas que são o contrário do que defendem? Por exemplo, um conservador não pode aceitar o estatismo e a redistribuição social igualitária dos TIR’s, p.ex. Um Identitário não pode aceitar que a comunidade não seja sobretudo um vínculo material, ao contrário do tradicionalista que vê a comunidade como uma forma de amizade ou amor superior à matéria. Quem prescinde destes elementos que são essenciais é porque não acredita neles o suficiente e portanto nunca foi aquilo que disse ser. Quem aceita que se propaguem todas as mensagens (mesmo as contraditórias) acredita em alguma coisa?»

Acho a questão mal formulada. Se efectivamente se quiser “fazer uma frente” não se vai pegar nas coisas opostas que dizem os seus elementos mas sim naquilo que os une. Em política não há romantismos mas táctica, não há amizades mas alianças (muitas delas pontuais). Não pretendo com isto que se abandonem os princípios que devem nortear a acção política – pelo contrário, a falta de princípios é que caracteriza quem está de bem com o sistema que nos desgoverna. Mas é perfeitamente irrealista pensar-se em mudar o estado de coisas sem o contributo de movimentos e pessoas que, mesmo tendo algumas incompatibilidades com as nossas ideias, mantêm alguns pontos em comum.

Confesso que também não tenho qualquer habilidade para esse exercício perigoso e recheado de armadilhas e incompreensões (e por isso nunca me envolvi na acção política). Mas no século passado há excelentes exemplos de pessoas de convicções que conseguiram alianças por vezes precárias mas que permitiram levar à prática boas políticas que de outro modo não sairiam das páginas de revistas doutrinárias.

Encontrar pontos comuns é um exercício curioso que serve para mostrar as potencialidades de uma comunicação (ou frente) entre “nacionais”, bem como os seus limites. Assim, eu concordo com a Causa Identitária quando esta organização fala dos perigos crescentes da imigração, em especial a extra-europeia; mas discordo do seu ideal europeu, tão vagamente romântico como perigosamente impreciso; concordo com a TIR quando denuncia os abusos laborais em certas empresas mas de modo algum concordo com a sua “via para o socialismo”. Tal como não tenho paciência para quem diz que quem não é branco não pode ser português (e vai ao ponto de “desaportuguesar” pessoas que já deixaram este mundo e que sempre foram portuguesas) também não compreendo quem ache que não há problemas em se continuar a receber em barda imigrantes dos PALOP. E tal como, sendo monárquico por convicção, me sentiria muito pouco à vontade a viver numa “monarquia democrática”, regime em que o rei é uma testemunha impotente da desagregação nacional. Igualmente pode soar-me mal ao ouvido o slogan do “orgulho branco” (se significar supremacia arrogante) mas arrepia-me ainda mais a retórica do “orgulho mestiço” com que nos matraqueiam a toda a hora, num afã despudorado de diluição da identidade (e, porque não dizê-lo, do sangue) europeu.

É por tudo isto que não vejo nenhum mal em haver uma plataforma de divulgação de iniciativas e textos oriundos das várias correntes ditas nacionais. Não só porque isso de modo algum significa que eu não “acredite em alguma coisa”, como significa que acredito que alguma coisa pode ser feita.

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12 Respostas to “Nós e eles”

  1. Miguel Vaz said

    “Assim, eu concordo com a Causa Identitária quando esta organização fala dos perigos crescentes da imigração, em especial a extra-europeia; mas discordo do seu ideal europeu, tão vagamente romântico como perigosamente impreciso; concordo com a TIR quando denuncia os abusos laborais em certas empresas mas de modo algum concordo com a sua “via para o socialismo”. Tal como não tenho paciência para quem diz que quem não é branco não pode ser português (e vai ao ponto de “desaportuguesar” pessoas que já deixaram este mundo e que sempre foram portuguesas) também não compreendo quem ache que não há problemas em se continuar a receber em barda imigrantes dos PALOP. E tal como, sendo monárquico por convicção, me sentiria muito pouco à vontade a viver numa “monarquia democrática”, regime em que o rei é uma testemunha impotente da desagregação nacional. Igualmente pode soar-me mal ao ouvido o slogan do “orgulho branco” (se significar supremacia arrogante) mas arrepia-me ainda mais a retórica do “orgulho mestiço” com que nos matraqueiam a toda a hora, num afã despudorado de diluição da identidade (e, porque não dizê-lo, do sangue) europeu.”

    Onde é que eu assino?

  2. O socialismo da TIR nada tem a ver com marxismo.
    São pedras fundamentais do nosso socialismo a defesa da livre iniciativa, da propriedade privada e condenados o igualitarismo, porque a própria natureza se encarrega de o desmentir.
    Para nós marxismo não é o oposto de capitalismo, antes pelo contrário.

  3. Bom, temos é um marxista…

    Aham, FSantos, “you got mail”.

  4. O Réprobo said

    Meu Caro Átrida,
    sugiro uma clarificação no título:
    NÓS OU ELES!
    Abraço

  5. o corcunda said

    Eu reitero o que disse. Não me aliaria com o Garcia Pereira, ou com qualquer pessoa que defendesse racismos, materialismos. E acho que a política é o lugar por excelência da amizade, porque é ordenadora de relações. Curiosamente fazes no “post” exactamente o que eu avisei no comentário. Subalternizas as várias propostas àquilo que te parece que é aprovitável na tua visão. Esqueces-te que há muito mais no racialismo que o problema da imigração e que há muito mais problemas no socialismo que alguns abusos laborais. Como se pode formar uma aliança desta forma? Imagina que a tal aliança chegaria ao poder. O que é que iria defender no parlamento? Os problemas da imigração? É por isso que o nacionalismo cá do burgo é monotemático… Não tem mais nada a dizer, não tem uma solução para nada. Aborrece de morte.

  6. o corcunda said

    Ooops. Sem querer carreguei no enter…

    Grande abraço deste amigo

  7. Miguel Vaz said

    Caro corcunda,

    O Nacionalismo tem muito a dizer no parlamento. A defesa da família, dos valores tradicionais. A luta contra o emprego precário, uma realidade cada vez mais presente nos dias de hoje. A promoção da identidade nacional, seja cultural, histórica, linguística ou étnica. A defesa do ambiente, do ordenamento do território, da biodiversidade. A dignificação das forças armadas e das forças de segurança, o primeiro garante da soberania nacional. A crítica aberta à globalização económica, à uniformização e à formatação mental. A defesa do Estado Social, do direito à Saúde, à Educação e à Habitação. A luta contra a desertificação e a promoção do mundo rural, último reduto das tradições portuguesas.
    Como se vê, em quase tudo isto, seja a Causa Identitária, seja a TIR, seja o PNR, seja o próprio Corcunda, estão de acordo 😉
    Porquê procurar as diferenças quando os pontos em comum estão tão à vista?

  8. o corcunda said

    Caríssimo Miguel,

    Infelizmente isso não é verdade. Defendo como essencial a identidade espiritual portuguesa. Só com ela se pode defender a família, a história, a língua ou a etnicidade. Esta última, por exemplo, quando é referida como elemento racial ou linguístico, vai contra tudo aquilo em que acredito. A família se não fôr compreendida como elemento de amor ordenado segundo princípios cristãos não me interessa para nada. E o TIR ou a CI poderiam aceitar isto? A história segundo os identitários é determinada pela raça e a raça é o elemento fundamental do ser. Para os socialistas a História é o palco da luta de classes. É isto compatível com a História de Portugal? Não tenho qualquer interesse nessa história, como em tradições que são mera museologia, desligadas das finalidades da comunidade (odeio folclore).
    Não concordo com o Estado Social, porque odeio o socialismo. Não acho que exista um direito à Saúde, porque se houvesse teríamos de investir todos os lucros nas farmacêuticas que criam Saúde com a sua pesquisa. Não acredito no Direito à Habitação, porque não tenho nada a ver com as pessoas que não querem ter uma casa, nem com os que não querem trabalhar para isso. Curiosamente foi nas comunidades onde tais direitos não se encontram garantidos que as maiores taxas de saúde e habitação foram obtidos.
    Já agora, tudo o que referiste faz também parte do acervo do CDS.
    O que me parece mais importante observar é que, por detrás das palavras, se escondem diferenças em tudo aquilo que é passível de regenerar Portugal. Não há uma proposta de sociedade boa que possa sair desse “caldo” ideológico que faça alguma diferença real para o país.
    É por isso que há um “nós” e um “eles”.
    Não acredito que exista algo a fazer que não se mova na matriz espiritual cristã, porque é ela quem revela os significados próprios das coisas na nossa tradição. O resto são jogos de palavras e semelhanças de ocasião, da mesma forma que o PCTP-MRPP também é hoje soberanista.
    Dizem-me que pensando desta forma nada se fará. Respondo que este é o limite da acção. Sem isso nenhuma acção é importante e redunda no vazio, no paliativo ou na busca de lugares políticos. E se for para ter aliados, garanto que há aliados melhores para a obtenção de poder político.

    Um abraço

  9. […] debate aqui iniciado chega agora a esta casa, felizmente sempre a um nível elevado, longe da imagem evocada […]

  10. Debate muito interessante. Muito interessante mesmo. Mas enquanto vamos debatendo, enquanto vamos falando por aqui, “lá fora” criam-se partidos, associações, grupos, chamem-lhe o que quiserem, que vão dividindo, dividindo, dividido… E dividem porque X não se senta ao lado de Y, porque W odeia Z, porque uns não gostam de folclore, porque outros qurem “Portugal do Minho até Timor, porque outros querem uma “Europa Branca”, porque uns querem ter supremacia branco e outros apenas orgulho… E vamos dividindo, dividindo, dividindo…

    O dito “Sistema” agradece e ri-se… Os “Nacionalistas”, “Identitários”, Racialistas”, etc, gritam, insultam, ameaçam… MAS UNS AOS OUTROS! O que não deixa de ser curioso… E o Sistema ri-se… Porque enquanto assim for, irá continuar a sugar o povo e a fazer a sua lavagem cerebral.
    Não há paciência. Aqui, nos blogs, nos sites, por toda a Internet, espalham-se os “heróis de teclado”, mas para se ir mais além temos que sair de casa, deixar de olhar para o umbigo e arregaçar as mangas.

    Não bastam associações e partidos de boas vontades. Não bastam grupinhos de pseudo-elitistas. Tal como o nosso corpo, convivemos com os braços que carregam a espada, suportadas por umas pernas que nos levam mais além, mas também convivemos com outras partes do corpo que só fazem m…….!!!! Mas precisamos de todos! Porque todos têm a sua importância! E o seu lugar!

  11. Esqueci-me da “publicidade”…

    http://revisionismoemlinha.blogspot.com/

    Saudações!

  12. Caturo said

    De facto, do que se fala quando está em causa o Nacionalismo?
    Não interessa se uns e outros dizem querer defender Portugal – não há possibilidade de aliança entre quem tem, não apenas conceitos diferentes, mas conceitos diametralmente opostos. Não é possível, por exemplo, conciliar um ideário centrado na consciência de sangue e de integral lealdade à Estirpe, com lugar de destaque para o folclore, com a agenda de quem quer e sempre quis fazer de Portugal um serviçal da «Santa» Sé, um instrumento para a difusão mundial duma doutrina militantemente universalista e essencialmente adversa ao espírito de Estirpe, que significou o advento da mentalidade religiosa de pária como modelo único e obrigatório a seguir.

    Não é pois possível ter no mesmo projecto, na mesma frente, sequer no mesmo sector ideológico, quem honra a integralidade da sua herança racial e étnica e também quem quer impor a doutrina cristã como critério condutor. Ao fim ao cabo, estes dois modos de ver estão mais distanciados entre si do que quaisquer outros. Há menos distância entre um militante do BE e um cristão do que entre um racialista e um patriota cristão. Ao mesmo tempo, é menos mau, para um racialista, votar no PCTP/MRPP do que em qualquer partido orientado pelo patriotismo cristão.

    E porquê?
    Porque a natureza do grande inimigo de toda a consciência de Estirpe é precisamente a do Cristianismo – porque a morte por diluição da identidade em nome do amor universal tem origem precisamente nos ovos de serpente que o Cristianismo colocou na Europa quando há mil e setecentos anos começou a dominá-la.

    Disse Justino o Mártir, um dos doutores da Igreja:
    nós que antes matávamos e nos odiávamos e não compartilharíamos nosso lugar com pessoas de outra tribo devido a seus [diferentes] costumes, agora, depois da vinda de Cristo, vivemos juntos com eles.

    É possível um nacionalista a sério pactuar com isto? Nem por brincadeira.

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