Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Centenário do nascimento de António Lopes Ribeiro

Posted by atrida em Quarta-feira, Abril 16, 2008

O amigo Nonas já evocou o centenário desse grande senhor do cinema português que foi António Lopes Ribeiro, incluindo no seu postal diversas ligações a textos sobre o Mestre. Recomendo a leitura dos mesmos, para um enquadramento histórico da sua figura. Não vou aqui repetir o que podem ler nesses textos, aproveitando antes para falar de alguns aspectos relativos ao autor não evocados nos referidos artigos.

António Lopes Ribeiro é hoje depreciativamente intitulado “cineasta do regime” dada a sua adesão (que não terminou em 1974 – os grandes homens não mudam de ideias ao sabor dos ventos do tempo) ao ideal do Estado Novo. O que poucos relatam é o seu papel na divulgação do cinema… soviético! Foi devido ao seu empenho que se projectou em Portugal, já depois da Revolução de Maio, “Linha Geral”, do cineasta oficial do regime soviético Sergej Eisenstein (claro que ninguém chama isso ao mestre soviético, socorrendo-se se necessário, e como contraditório, da segunda parte de “Ivan, O Terrível”, que irritou sobremaneira o tirano georgiano). O filme, aliás, é para o fracote, apesar de alguns momentos humorísticos.

“A Revolução de Maio” é o filme de que os democratas gostam de falar para que não haja dúvidas sobre a pressão iedológica ditatorial exercida sobre o Portugal dos anos trinta. Mas a película é tão boa que muitos cinéfilos nada simpatizantes do regime salazarista realçam os seus méritos cinematográficos. (Que também os há no notável “A Força da Vontade” de Leni Riefenstahl, em “O Couraçado Potemkine” do referido Eisenstein ou em… “Foreign Correspondent” de Alfred Hitchcock – um filme de propaganda de 1940 elogiado pelo insuspeito Dr. Goebbels.)

Há dois documentários de Lopes Ribeiro que não quero deixar de mencionar. Um, “Inauguração do Estádio Nacional”, de 1944, além de notável reportagem sobre o evento em si, constitui um momento de exaltação nacionalista verdadeiramente empolgante: os jovens da Mocidade descendo as bancadas com as suas bandeiras a adejar ou os graciosos movimentos das moças no relvado ficam na retina do espectador. (O documentário está incluído como complemento no DVD de “A Menina da Rádio”.)

Outro, “Lisboa de Hoje e de Amanhã”, de 1948, é um documento notável sobre a renovação urbanística que a capital estava a sofrer na época da sua realização, mostrando o rigoroso planeamento dos projectos, a sua inserção no espaço físico e a preocupação na construção de bairros populares que fizessem os seus habitantes sentirem alguma proximidade com os campos de onde muitos eram oriundos, com casas com um quintalzinho e apenas um andar. Qualquer comparação com o “urbanismo” de hoje seria supérfluo exercício. (O documentário está incluído como complemento no DVD de “A Vizinha do Lado”.)

E, já que falamos em “A Vizinha do Lado”, porque não evocar esta comédia quase esquecida, ofuscada pelo sucesso de “O Pai Tirano”. Não sendo aquela obra do mesmo quilate que esta última, nem por isso deixa de ser um filme muito bem feito e divertido, com momentos impagáveis, como este diálogo:

Plácido: «Ai, Adelaide, eu nessa noite perdi a cabeça.»

Adelaide: «Se fosse só isso que eu perdi…»

Depois, a presença de António Vilar, António Silva e do irmão do realizador, Francisco Ribeiro (Ribeirinho) é perfeitamente notável. A peça de André Brun, cuja acção se passa em algumas horas apenas na Lisboa dos primórdios da República, é transposta para a película com mestria e a fotografia é belíssima. A (re)descobrir! 

António Lopes Ribeiro era uma pessoa muito afável, com um olhar meigo e bondoso. Recordo entrevistas que deu para a televisão, nos anos 80, onde evocava com um brilho no olhar tempos passados, trucidados pela voragem do tempo e pela mesquinhez de tantos que juraram perder o País.

Vi-o uma vez, na Calçada da Estrela, em Lisboa, onde habitava. O mesmo olhar de homem bom, acompanhado de discreto sorriso, penetrou-me na alma – e não me saíu da mente desde então.

Que esteja descansando em paz este grande português.

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