Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Céline e Jünger

Posted by atrida em Segunda-feira, Abril 28, 2008

O amigo Duarte, a quem aproveito para dar os parabéns pelo 4º aniversário do Pena e Espada, evocou neste postal as péssimas relações entre dois dos maiores vultos das letras do século XX: Céline e Jünger. Recorrendo ao terceiro volume da magnífica biografia do primeiro (1ª edição: 1985), obra de François Gibault, proponho aos leitores o historiar desse conturbado relacionamento.

Tudo começa com o processo intentado por Céline, em 1951, contra as Éditions Juliiard na sequência da publicação do “Diário” de Ernst Jünger. Gibault evoca a experiência de ambos os escritores na I Guerra, salientando também como eram diferentes.  Jünger era um «oficial em alma, homem de ordem, grande burguês (…) [e] mantivera-se ligado às tradições culturais e liberais do Sacro-Império e nunca se associou a nenhuma das grandes histerias (sic) de Adolf Hitler –  que de resto caracterizou em “Falésias de Mármore” na personagem de Kniebolo – e que ele considerava uma verdadeira encarnação do Diabo. Guardadas as devidas proporções, também ficou apavorado pela figura de Céline. Os dois nada tinham para se poderem entender e a fantasia desabrida de Céline chocava profundamente o oficial alemão sempre respeitoso das boas maneiras.»

O “Diário” de Jünger contém várias referências a Céline, todas pouco abonatórias do grande escritor: «7 de Janeiro de 1942: tarde passada na casa de Poupet (…) Conversação sobre Melville, Fabre, Cocteau, Hercule e o horrendo Céline.» E chegava a mencionar o boato de que Céline torrava todo o dinheiro que ganhava com os seus livros com prostitutas.

Outro exemplo da aversão do germânico pelo francês: «O doutor X [Céline] falou-nos então da sua prática, que se parece distinguir por uma acumulação de casos sinistros. De resto ele é bretão – o que confirma a minha primeira impressão de que ele é um homem da idade da pedra (sic). Visita incessantemente as fossas de Katyn [o que de modo algum corresponde à verdade, Céline nunca as visitou] (…) parece evidente que tais locais o atraem.» Como vemos, o pior exemplo de um livro de memórias: pegar-se em boatos sem fundamento para denegrir alguém que se detesta.

Mas o pior estava para vir com a edição em francês do “Diário”: evocando o seu primeiro encontro com Céline (7 de Dezembro de 1941), no Instituto Alemão em Paris, Jünger escreve:«Céline, grande, ossudo, robusto (…) alerta na discussão, ou melhor, no monólogo. Há nele o olhar dos maníacos, virado para dentro, que brilha como no fundo de um buraco. (…) Diz da sua surpresa pelo facto de nós, soldados, não fuzilarmos, não enforcarmos, não exterminarmos os judeus- fica espantado que quem possua uma baioneta lhe não dê uso ilimitado.» No texto original do “Diário”, Jünger teve o cuidado de substituir o nome de Céline pelo de Merlim e noutras passagens substitui-o, como vimos, pelo de Doutor X, sabendo que Céline ainda não tinha sido julgado. Desgraçadamente, o tradutor francês trabalhou não sobre a edição alemã mas sim sobre uma versão datilografada não corrigida na qual ainda figurava o nome de Céline. Jünger só teve conhecimento do facto após a publicação do livro. E não perdeu tempo a escrever a Céline lamentando o facto e pondo-se à sua disposição para negar que na obra se lhe estivesse a referir: «Não aprovo as suas ideias mas longe de mim querer prejudicá-lo.»

Em relação à “citação assassina”, Gibault correctamente lembra que Céline frequentemente gostava de chocar os seus ouvintes, fazendo uso de um humor frione que quem o não conhecesse bem poderia ser levado a pensar que ele era realmente uma pessoa sádica.

Seguiu-se um processo, em que o advogado de Céline foi o futuro candidato presidencial Tixier-Vignancourt. O processo degenerou em enorme confusão, defendendo-se a Julliard como pôde. Céline desabafou por carta a Paulhan: « De quem é que eles estão a falar? Eles não me conhecem, na verdade! Ultrajam-me pela ignorância do meu carácter – todo de granito.» Céline vem a desisitir do processo.

Gibault evoca ainda um incrível encontro, em 1956, entre Céline e o secretário particular de Jünger à época do processo, Armin Mohler, que se fez acompanhar por um jornalista suíço. O escritor mostrou-se apático e mal falou. Quando Mohler revelou quem era «o efeito foi extraordinário. Pela primeira vez Céline levanta a cabeça, os seus olhos fixam-se nos meus e da sua boca sai uma lista glacial de epítetos, esses epítetos que encontramos nos seus livros. Duas palavras são recorrentes: “Esse bochezeco, essa espécie de chui”. Depois, voltou ao seu torpor, do qual só saíu por altura das despedidas (…): “Os franceses! Mas já não há franceses! Eu sou o último dos franceses…”»

Quanto a Jünger, em carta enviada a Gibault em 1978, parece ter nuanceado um pouco a sua opinião sobre Céline: »Embora reconheça em Céline um dos melhores conhecedores contemporâneos da infâmia moderna (…) creio no entanto que lhe faltou manter a indispensável distância dessa mesma infâmia. Nada disso retira o que quer que seja à sua obra, e torna-a mesmo mais intensa, embora traga algum incómodo à sua leitura.»

Advertisements

2 Respostas to “Céline e Jünger”

  1. db said

    Obrigado pelos parabéns, mas agradeço ainda mais este excelente ‘post’, que deixa a minha curiosidade ao rubro sobre esse livro. Não tenho nem nunca li essa biografia, mas já está na minha lista “a comprar”.
    Um abraço.

  2. […] biógrafo de Céline François Gibault (a cuja obra já aqui me referi) concede uma notável entrevista em que percorre toda a vida do escritor, mostrando a sua […]

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: