Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

A nossa selecção?

Posted by atrida em Quarta-feira, Junho 11, 2008

Já poucos se parecem lembrar que, antes da chegada de Carlos Queirós à selecção nacional, esta estava nas lonas em termos de imagem. Era raro o jogo da selecção em Portugal que esgotava a        lotação. Com Queirós houve um trabalho de melhoria da imagem, acompanhado por acções de merchandising. A passagem do sinistro Oliveira quase estragou tudo: desde a complacência para com as sortidas nocturnas de alguns jogadores em pleno cio, passando pela desculpabilização da acção de João V. Pinto tomando o estômago de um árbitro como punching ball, até ao estranho incentivar de um jogador que ia entrar em campo contra a Áustria (“vá, mostra lá a esses nazis como é que se joga à bola”) – e que a RTP captou – houve um pouco de tudo.

Scolari é mais esperto e, embora também amador na arte do pugilato com colegas do mesmo sector de actividade, conseguiu conquistar o tuga amante da bola. Num país massacrado há trinta e quatro anos com a aversão ao que é nacional, foi preciso um estrangeiro para desinibir as pessoas de ostentarem símbolos nacionais.

Ao mesmo tempo, com a benevolência do sr. Madaíl, começou a estrangeirar a selecção. Prova de que o patriotismo da bola pouco tem de patriotismo, o povoléu encolheu os ombros: “qualquer um serve desde que ajude Portugal a ganhar”.

Para agravar a coisa, as estações de televisão massacram os espectadores com horas e horas de palha em torno da selecção: as privadas, porque querem audiências e estas conquistam-se com futebol, escândalos, acidentes, telenovelas e outros programas de alto nível; a pública, porque a bola sempre distrai as atenções do estado em que se encontra o país, aliviando a pressão sobre o governo, afinal quem manda na estação e nomeia os seus gestores.

 A democracia levou a alienação do povo a píncaros nunca vistos neste país. O governo, com projectos a quatro anos, dá graxa ao “povo soberano”, enquanto trabalha para interesses inconfessáveis; os privados com interesses na comunicação apostam no abastardamento das massas como forma de enriquecer. Para eles, sem dúvida que esta é a nossa selecção.

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Uma resposta to “A nossa selecção?”

  1. O Réprobo said

    Caríssimo,
    só não concordo com o “estrangeirar a selecção”, desde logo porque não acho que tal se tenha dado – apenas corrigiu mais um erro liberalão, a Independência do Brasil.
    Abraço

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