Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

São Paulo

Posted by atrida em Terça-feira, Julho 1, 2008

São Paulo deve ser das cidades mais contrastantes em todo o mundo. Nesta imensa urbe que, com os subúrbios, alberga 18 milhões de pessoas, cruzam-se povos das mais diversas origens e pessoas das mais variadas condições sociais. Contrastam igualmente as edificações sumptuosas – algumas delas extremamente ousadas do ponto de vista arquitectónico, como a nóvel ponte Octávio Frias de Oliveira, na foto – com as malfadadas favelas que, por aqui, são em tijolo, algumas delas encimadas por antenas parabólicas…

A cidade é o motor económico do imenso país, onde as principais empresas e indústrias se concentram, onde as tecnologias de ponta e o melhor da intelectualidade (em sentido lato, incluindo empresarial) brasileira se revelam. Uma cidade onde um dos melhores bairros, o Morumbi, tem como “vizinha” uma imensa favela; ou onde se localizam alguns dos melhores restaurantes do mundo, bem perto da “mala vita” da zona da Sé.

A Sé, que devia ser a principal atracção turística da cidade, é uma zona que, a partir do anoitecer, se deve evitar em absoluto: o turista incauto sente-se rapidamente ameaçado pelas hordas de mendigos e drogados que por lá circulam, bem junto ao monumento ao evangelizador Anchieta e ao Colégio dos Jesuítas. O local onde nasceu a cidade é aquele onde ela mostra, actualmente, a sua pior face.

Não muito longe dali, o magnífico Teatro Municipal, num estilo que faz lembrar a Ópera de Bilbau, apresenta de momento “Madama Butterfly”, a ópera de Giacomo Puccini de forte inspiração temática e musical japonesa. Excelente escolha no ano em que se comemora o centenário do início da imigração japonesa (o primeiro barco com naturais do país do Sol Nascente chegou ao porto de Santos em 18 de Junho de 1908), comunidade que tanto contribuiu para o progresso do país, ao mesmo tempo que soube manter a sua identidade, espelhada por exemplo no facto de ser aquela que menos se mistura (menos de 20% de mestiços após cem anos) ou na forma como o Bairro da Liberdade mantém um forte ar oriental, nas lojas, nas construções, na iluminação pública.

O europeu estranha uma urbe com poucas praças, sucedendo-se os cruzamentos entre largas avenidas, apinhadas de carros apesar do sistema de rodízio (proibição de circular a determinados números de matrícula) vigente nas horas de ponta. O trânsito, a par do futebol, é o tema de conversa mais recorrente entre os paulistas. Numa tarde de sexta-feira pode-se gastar entre duas a três horas a atravessar a cidade.

No futebol, o Estado de São Paulo – na prática, a cidade de São Paulo mais o Santos FC – mantém a hegemonia dos títulos recentes. O clube que dá nome à cidade tenta defender o tricampeonato, sendo o Palmeiras (clube fundado pela comunidade italiana) um forte oponente (conquistou, alías, o estadual deste ano). A Portuguesa regressou este ano à elite e está a bater-se bem. Já o clube com mais adeptos (e segundo neste capítulo a nível nacional, atrás do Flamengo), o Corinthians, amarga na Segundona (onde lidera), para gáudio dos restantes, que lhe votam um ódio de morte. Os estádios por aqui raramente enchem (impressiona ver o Morumbi – magnífica casa do São Paulo FC – com pouco mais de dez mil pessoas em boa parte da época), possivelmente por causa da insegurança, que acantona os adeptos ao sofá em dia de jogo.No Brasil não há grandismos, sendo os clubes respeitados por igual, nomedamente nos media. Um histórico como o Bahia, que amargou dois anos na Terceira, teve sempre o devido destaque, até pelo facto de ter sido há dois anos o clube com melhores assistências em todo o Brasil! É, aliás, o Norte e o Nordeste que têm os adeptos mais fiéis e fanáticos (clubes como o Santa Cruz de Recife ou o ABC de Natal arrastam verdadeiras multidões, seja qual for a divisão em que actuam).

A herança italiana em São Paulo é notória, não só pelo Palmeiras, como pelos centros culturais (um sediado no magnífico Edifício Itália, que tem um terraço a alturas do 41º andar com uma vista extraordinária sobre a cidade) ou até por certos perfis que não enganam: a mulher paulista é um regalo à vista!

Na urbe de 18 milhões de pessoas, um terço é de origem nordestina, quase todos mestiços (pardos, como por aqui se diz). Nos restaurantes da moda, nos shoppings que se multiplicam como cogumelos, ou nos centros empresariais praticamente não se vêem: nestes locais os brancos representam a quase totalidade das pessoas (pouca gente, fora do Brasil, sabe que exactamente 50% da população é branca, 39% mestiça, 6% negra, 1% japonesa, entre outros) – com a imigração que tem entrado na Europa quase diria que esses locais são, etnicamente, bem mais europeus que muitos locais congéneres do velho continente!

De qualquer modo, e é apenas uma impressão imperfeita de quem começa a conhecer a cidade, nos contactos que tive e que testemunhei não me apercebi de qualquer racismo, bem pelo contrário, a urbanidade no trato entre os brasileiros não parece ter barreiras. Ao contrário do parece suceder no Rio, onde a elite económica branca nutre um profundo desprezo por negros e mestiços.

No meio de tanta construção, de tantos prédios altos e de favelas a perder de vista, é um regalo passear pelo Parque do Ibirapuera, verdadeira jóia verde no coração da cidade. Uma cidade que, primeiro, choca pelo contraste, que depois se começa a apreender e a compreender, e que acaba por cativar e deixar saudades cada vez que se empreende o regresso de dez horas de avião à Mãe Pátria que certo Pedro decidiu desligar do imenso território que é por si um continente. E um mundo.

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2 Respostas to “São Paulo”

  1. Eu fui para fora cá dentro, por simpatia dum convite da embaixada da Venezuela em Lisboa (com direito a elogio público do Gral. Lucas Rincón) conheci por dentro os jardins dos monumentos Palácio Foz e Pestana Palace nos últimos dias.

    E como me perdi a caminho do segundo encontrei umas verdadeiras favelas e grutas habitadas em Lisboa povoadas por portugueses – não por quaisquer imigrantes. Portugal é também cada vez mais um país de contrastes.

  2. looooooooooooooo que legal

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