Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Quatro anos

Posted by atrida em Terça-feira, Outubro 7, 2008

Pois é, meus amigos, amanhã cumprem-se já quatro anos desde que me iniciei nas lides da blogosfera, aqui. Não foi um percurso linear, pois mudei de plataforma para este espaço, depois mudei para este blogue e, não satisfeito, criei este Odisseia já este ano.

Entre objectivos de alterar a frequência de actualizações, concentrar-me mais em questões culturais ou simplesmente reagir a tentações de abandonar a blogosfera se foi fazendo este percurso, que os amigos e leitores julgarão com alguma indulgência.

Lendo e relendo o comentário arrepiante do Bic Laranja («Portugal é somente uma ideia a que ainda estamos habituados. Mas já acabou.»), e tendendo a concordar em parte, porque é que continuo, porque é que continuamos a lutar pelo nosso querido país? Por fidelidade, por amor pátrio, por orgulho por grande parte do seu passado, por dever de respeito a quem deu a vida por ele; quiçá também por uma ténue esperança de que algum dia, no tempo dos nossos filhos ou netos, este país volte a ser merecedor do respeito da sua história. E também porque, como ensinava Franco Nogueira (não exactamente com estas palavras), a Nação é o quadro ideal para as pessoas poderem exercer a sua liberdade em dignidade.

Aprendi muito nestes quatro anos. Aprendi com pessoas de grande calibre intelectual, curiosas, inquietas, inconformadas, dignas. Senti-me e sinto-me parte de uma comunidade que não abdica dos seus princípios por um maior desafogo material ou por simples desejo de repouso.

Zanguei-me com uns, tolerei diferenças de outros, percebi que aquele grupo difuso a que se chama “nacionalistas” tem tantas coisas em comum como antagónicas, tantas diferenças menores como irreconciliáveis. Latinos que somos, estamos destinados à desunião, à procura de impor a nossa perspectiva e teimosamente incapazes de aligeirar alguma postura? Por fidelidade, teimosia, incapacidade gregária?

Mas também há a convicção de que, por muito diferentes que sejamos, estamos no mesmo lado da barricada, para a qual nos empurraram anos e anos de terrorismo e desonestidade intelectual; de mentiras, abandonos e cobardias. Talvez esse facto não chegue para nos caracterizar como grupo homogéneo – que não somos; mas chega para perceber que a unidade existe: na identificação do inimigo.

Nestes anos conquistei amizades que me atrevo a pensar vitalícias, tal a simbiose estética e cultural – e apesar de diferenças várias – que nos une, mas mais que tudo a convicção partilhada de que não nos verão daqui a uns anos a desdizer aquilo que defendemos anos a fio.

É isso que nos dá força, é isso que nos une, é isso que nos leva a dizer “Viva Portugal!”. E viva a Amizade.

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20 Respostas to “Quatro anos”

  1. Optio said

    Ainda não percebi se é para comemorar com almoço ou com jantar?

  2. Se calhar alinhava numa comezaina também, antes de me afastar definitivamente da “área”.

  3. Parabéns de uma leitora que passa por cá muitas vezes, porque, não obstante discordar muitas vezes do que escreve- concordando muitas outras- encontra aqui uma escrita “p’ra ninguém botar defeito”, não raro empolgante.

  4. atrida said

    Optio, desta vez ainda não é com vinho do Sul.
    Flávio: e faz muito bem, há que manter a linha. 😉
    Cristina: muito obrigado. E eu que ignorava que tinha um blogue! Já passou a leitura obrigatória. Saudações para a bela Guimarães.

  5. Anónimo said

    Caríssimo Amigo
    Muitos Parabéns. Todas as suas Casas têm um denominador comum, uma grande coerência e coragem.
    Que continue.
    Abraço.
    Mário

  6. O Corcunda said

    Não podia deixar de dar um grande abraço ao Átrida por esta data e de lhe agradecer por estes quatro anos de verticalidade. Foram tantas as vezes que te pedi para abrires um blogue, para te tentar fixar por estas bandas, que não podia deixar de celebrar o o dia em que finalmente cedeste. Agora e ainda bem, já não estás em posição de parar…

    Grande abraço

  7. Diogo said

    Eu diria antes: Viva a Blogosfera e viva a Internet que está a fazer um bypass aos Media e aos políticos. É esta a grande esperança de mudança.

  8. atrida said

    Mário: mantendo a sua Voz todos temos aprendido consigo e tido o prazer de o ler. Um exemplo.
    Corcunda: e que dizer do Pasquim, que vai para cinco anos mostrando como é fundamental um substracto ético e princípios sólidos como base essencial para qualquer transformação?
    Diogo: ilusão ou não, é essa esperança que nos vai alimentando.

  9. DB said

    Muitos parabéns!

    Um grande abraço deste amigo e fiel seguidor desta casa e de outras passadas com as quais tanto aprendi.

    P.S. – Marque-se o jantar! 😉

  10. Euro-Ultramarino said

    Meu Caro Amigo,
    Muitos parabéns por quatro vigorosos anos! E um muito obrigado especial pelo exemplo de portuguesismo, de honestidade intelectual e de coragem no combate ao mundo da mentira ¨politicamente correcta¨. Continue firme!
    Um abraço apertado.

  11. gdr said

    É destes exemplos de permanência que vive muito do animo da GdR.

    Um abraço e que continue por cá.

  12. O Réprobo said

    Abraço apertado pelo labor e qualidade constantes. E a irredutibilidade pessoal nunca deve ceder a tentações gregárias de facção.

  13. Atrida said

    Caro DB, vamos a isso! Cada um leva o livro que estiver a ler.
    Estimado amigo de além-mar: parece que se está a caracterizar a si próprio, o que só pode ser um elogio para mim.
    Amigo Gazeta: obrigado pelo apoio constante.
    Caro Réprobo: muito te devo, em incentivos, elogios exagerados e erudição. Ainda bem que também não consegues largar o barco da blogosfera.

  14. Sabe, há um restaurantezinho açoriano muito bom que tenho andado a promover blogosfera fora mas aparentemente sem resultado… até nos comentários do Jantar das Quartas já o tentei impingir sem resultado.

    http://www.espacoacores.com

  15. NC said

    Viva!

  16. Querido amigo:

    En primer lugar mi más cordial enhorabuena y mis felicitaciones por haber permanecido estos cuatro años con una de las plumas más interesantes e independientes de toda la blogosfera. Te doy las gracias porque has sabido resistir, sin sucumbir, a la tentación de abandonarla.
    En segundo lugar discrepo de ti en unas cuantas cosas. Pero sobre todo en eso de que “Portugal es una idea”. Portugal es una realidad. Y Portugal tiene una realidad metafísica y un soporte espiritual que va mucho más allá de lo que una serie de ladrones y delincuentes puedan hacer con la política y economía portuguesas en este preciso instante de la Historia. La realidad es que Portugal, cosa que otras muchas naciones no podrán decir, permanecerá hasta el final de la Historia, hasta que Cristo vuelva. Aunque esta realidad sea intangible no es menos realidad. De hecho es más realidad que las menudencias político-financieras, aunque éstas tampoco son de desdeñar.
    Portugal, amigo mío, es una Patria eterna y lugar predilectísimo de la Virgen María.
    Un fuerte abrazo,

    Rafael Castela Santos

  17. Mefistofeles said

    Caríssimo Atrida,
    Muitos parabéns pelo aniversário e na sequência dos votos já expressos anteriormente, que conte muitos na blogosfera, seja qual for a plataforma.
    Permita-me apenas acrescentar, neste sentido, e relativamente à afirmação «mas mais que tudo a convicção partilhada de que não nos verão daqui a uns anos a desdizer aquilo que defendemos anos a fio», que espero que se desdiga! E que o faça de forma veemente!
    Afinal as circunstâncias de hoje não serão as mesmas de amanhã e isso implica que exista um ajustar permanente de crenças, de ideias… até de ideologias se a tanto for necessário chegar!

    Abraços
    Mefistofeles

  18. atrida said

    Flávio: um dia destes batemo-nos por lá com um prato típico do Arquipélago.
    NC: feliz por o contar como um leitor da primeira hora.
    Rafael: até nisso o meu querido amigo é um homem de fé e eu um infeliz céptico.
    Mefistófeles: pobres dos que mudam com o vento.

  19. Maria said

    Até há cerca de 30 anos havia em Portugal um termo específico, parcimoniosamente usado aliás, que resumido num único superlativo classificava sucinta mas definitivamente, uma pessoa, ou algo, que se situasse acima da média por um conjunto de valores e/ou qualidades específicas ou requisitos elevados. Designação que tinha um conceito alargado e que abrangia todos os sectores da sociedade – arquitectura, engenharia, política, funcionalismo público, artes plásticas, literatura, ensino, etc. Era o substantivo adjectivado CLASSE. Desse algo ou pessoa, dizia-se que tinha muita categoria, ou simplesmente CLASSE. Este era o elogio máximo que se podia atribuir a algo ou alguém, Uma vez (e não raro) sublimado, havia ultrapassando a temporalidade. Podia tratar-se de uma personalidade, mas igualmente de um monumento, um edifício, uma estátua, uma cidade, uma ponte, uma escultura, uma pintura, um cenário, uma exposição, um livro, um espectáculo, etc. Os exemplos eram inúmeros e todos nós os conhecemos, porque ficaram para a posteridade. (Coloquei aqui alguns, mas resolvi retirá-los para abreviar o já de si longo comentário). Era uma designação com cunho perenal.
    Hoje porém, as palavras perderam todo o valor e significado em consequência do abastardamento da língua portuguesa e da própria degradação da sociedade. O substantivo em apreço presentemente não tem qualquer sentido ou justificação, porque tudo hoje é vulgar, deselegante, sem distinção, sem CLASSE. Não há obras, quaisquer que elas sejam, dignas desse nome. Salvo raríssimos casos, que também os há. D’antes, em tudo quanto se fazia havia integridade, estética, dedicação, ética, empenho, honestidade. Isto acabou definitivamente. Actualmente tudo é feio e mal elaborado. O que quer que se contrua é executado sem brio, atabalhoadamente, sem os mínimos requisitos de segurança, equilíbrio, elegância e perfeição. Nada é desempenhado com profissionalismo e reponsabilidade, ninguém tem amor à profissão. As pessoas movem-se exclusivamente por interesse e descuram tudo o resto. Isto passa-se a todos os níveis e em todas as áreas da sociedade, da arquitectura à política, das artes ao modo como se ensina a nossa língua nas escolas. Antigamente havia o culto de bem falar e bem escrever o português e quem o não fizesse sentia vergonha perante si e os outros, independentemente do seu grau d’ensino. (Até aqueles que tinham sómente a 3ª ou 4ª classe, aprimoravam ao máximo a ortografia e raramente cometiam erros gramaticais). Quem o exercesse na perfeição era sumamente reverenciado, era alguém com categoria, com CLASSE. Nos dias que correm e este inqualificável fenómeno arrasta-se há longos anos, todos os que aparecem nas televisões – dos políticos aos professores, dos ‘engenheiros’ aos locutores, dos apresentadores aos comentadores – se exprimem tremendamente mal. Existem imensos jornais e revistas no País mas o seu conteudo, gramatical e sintàcticamente falando, é um verdadeiro dó d’alma, já para não falar nas mentiras sucessivas e monumentais que, desde o advento da ‘democracia’, a comunicação social reflecte e transmite diàriamente aos leitores, tidas como verdades inquestionáveis. É inegável que houve melhorias n’alguns deles, mas muito ligeiras. Felizmente temos talvez dois jornais, se tanto, que fogem deste mar de hipocrisia. Pessoalmente deixei de os comprar há bastantes anos (o que sei deles é-me transmitido por familiares) salvo um único semanário, que compro ininterruptamente desde 1985 – quando um amigo dos meus pais, acabado de chegar d’Angola, nos informou que aquele jornal era aguardado e conservado como se de uma Bíblia se tratasse e um único número, normalmente levado por alguém de Portugal, era passado de mão em mão quase às escondidas e lido de fio a pavio, da primeira à última linha, por centenas de pessoas – porque respeita a nossa língua e honra com a verdade do que escreve, o povo português. Tudo à nossa volta é inestético, mal acabado, sem nível, desagradável à vista – dos edifícios às pracetas, dos jardins às “esculturas” públicas, dos prédios a cair de podres aos pavimentos e passeios imundos. As ruas, de tão conspurcadas, chegam a meter nojo aos próprios cães. Outrora quase tudo tinha encanto, beleza, elegância, havia preocupação na manutenção das fachadas dos prédios e nas avenidas, havia asseio e cuidado em não sujar, havia respeito por tudo e por todos, havia elevado nível no ensino e na língua portuguesa em particular. Tudo isto nós sabíamos, mas era muito agradável vermo-lo confirmado por amigos norte-americanos e ingleses que nos visitavam pelos anos 60 e princípios de 70. No presente tudo o que nos rodeia provoca desinteresse, revolta, indignação, desprezo, repugnância, quase ódio. A começar na política e a acabar em tudo o lhe está subjacente. Há contudo extraordinárias excepções que fogem à regra (há-as sempre, graças a Deus) e que nos enchem d’alegria na esperança de dias melhores. A Blogosfera está naturalmente entre as primeiras. E aqui o vocábulo CLASSE, há tanto tempo em desuso, volta a ter total cabimento assentando-lhe que nem uma luva. A Blogosfera é um meio de expressão absolutamente único, como se sabe, nela existem espaços de leitura de altíssimo nível. Dia após dia, ano após ano, sem desfalecimentos, nas páginas dos vários Blogs, que persistentemente vão mantendo actualizados, os seus brilhantes autores continuam a deixar plasmados escritos inconfundíveis, de elevação e qualidade ímpares. Isto deve-se ao seu enorme talento e dedicação, cuja recompensa lhes é tributada pelos milhares de incondicionais leitores que os visitam diàriamente. O substantivo CLASSE, recuperado que está o seu real valor, sintetiza na perfeição todas as virtualidades que alguns Blogs personificam. Este excelente espaço – que por sinal e com todo o mérito perfaz quatro anos d’existência, merecendo redobrados parabéns pelo esforço continuado – e a pessoa do seu administrador, pelos brilhantes textos que nele imprime, estão situados numa categoria à parte. Ambos têm muita CLASSE, sem o mínimo favor. Todos os Blogs de grande qualidade ficarão – já estão – gravados para sempre na memória dos leitores que neles se revêem. Já são casos muito sérios de sucesso e glória na História da Blogosfera. Que um dia se há-de escrever. O seu é indubitàvelmente um deles.
    Maria

  20. […] que vão deixando aqui as suas impressões, não quero deixar de chamar a vossa atenção para este comentário da leitora Maria, que é quase um diagnóstico do mal político, social e cultural que vem minando este país há […]

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