Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Em São Paulo vi

Posted by atrida em Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Em São Paulo vi bairros elegantes, avenidas largas, arquitectura ousada e extravagante. Encontrei gente boa, franca, aberta, acolhedora. Brancos, mestiços, negros, amarelos, árabes. Também vi ruas escuras, prédios devolutos, as favelas Paraisópolis (só o brasileiro poderia ironizar desta forma com a desgraça) e Heliópolis, menos extensas que as descomunais congéneres cariocas. Vi uma mãe com duas filhas, uma delas com não mais de três anos, “vivendo” debaixo de uma ponte – é uma imagem que não desaparece da mente; cem metros adiante, crianças brincam na área de diversões de um McDonalds.
A opulência da cidade mais dinâmica e empreendedora da América do Sul atraíu milhões de nordestinos (um terço dos 18 milhões que constituem a população de toda a área metropolitana) fugidos à seca e a uma miséria certa; mas, tal como na Europa opulenta, não é possível “receber toda a miséria do mundo” sem consequências: desemprego, pobreza, criminalidade. Esta é bem menos notória que no Rio e noutras cidades, embora a cidade não seja propriamente tranquila. Mas é possível nela passear-se com alguma despreocupação.
Em São Paulo vi uma Sé Catedral lindíssima, extremamente bem cuidada. Defronte da entrada cruzam-se (poucos) turistas com mendigos e alguns profetas que gritam a sua visão catastrófica do mundo, perante o olhar sério e atento de alguns passantes. Vi o Pátio do Colégio, local onde o Padre Anchieta se instalou para evangelizar os índios e do qual veio a nascer a futura cidade; o espaço contém capela, museu e um pátio com bela vista sobre a cidade. Passeei pelo magnífico Parque do Ibirapuera, onde os paulistanos descomprimem da agitação citadina, correm, andam de bicicleta, passeiam os filhos ou os canídeos, bebem suco de cuco ou visitam um museu de arte moderna. Em São Paulo visitei o Palácio do Ipiranga, erigido no local onde se crê que o renegado Pedro deu o famoso grito. O espaço é soberbo, com um museu da cidade e um museu histórico brasileiro, retratando a saga das Bandeiras e do nascimento de uma nação em magníficas telas como as de Mestre Bernardino Calixto.
Fui a Santos, terra chave no crescimento de São Paulo, porto por onde se escoava o café que esteve na origem do crescimento e da riqueza paulistas. A cidade, de forte presença portuguesa (até existe um clube Portuguesa Santista), tem uma bela marginal junto a uma enorme praia, onde a população – quase toda mestiça (ao contrário da bem mais branca São Paulo) – se banha e frui o simpático clima. Nos arredores da cidade, por vezes em íngremes encostas, espraiam-se precárias favelas, sina(l) de um Brasil eternamente contrastante. Mas sempre alegre e esperançoso, como no tema incluso na banda sonora de Tropa de Elite: “eu só quero é ser feliz / e passear tranquilamente / na favela onde eu nasci”.
Como me dizia um amigo meu brasileiro: “o Brasil é um país abençoado”. Ainda antes de o avião de regresso levantar já as saudades são muitas.
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Uma resposta to “Em São Paulo vi”

  1. Legionário said

    “o Brasil é um país abençoado”. Ainda antes de o avião de regresso levantar já as saudades são muitas.

    Vê lá se consegues transmitir essa ideia às resmas de brasucas que por cá andam…

    😉

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