Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

O fim de um mundo

Posted by atrida em Sexta-feira, Novembro 14, 2008

“When the legend becomes a fact, print the legend”

(In “The Man who shot Liberty Vallance”, de John Ford)

Confrontado com a aura que a mídia dele criou, Ransom Stoddard vê-se impotente para derrubar o mito, a mentira que tantas vezes repetida se tornou “verdade”. Mesmo quando conta a verdade a um jornalista, este prefere rasgar as notas que tomou a confrontar todo um país com a realidade.

Tom Doniphon representa o passado, o homem que perde tudo (noiva, casa, modo de vida, esperanças) e se arruína no álcool. As certezas de antanho já não servem no presente, o mundo mudou e quem não se habituou à mudança definha no desespero.

Stoddard representa o suposto primado da lei num mundo outrora sem lei, onde só a força mandava, mas a sua aura de grande homem foi construída com base num mito que se tornou verdade. Ironia das ironias posta no écran por John Ford, um homem profundamente conservador, humano, um poeta de um mundo idílico e harmonioso, familiar, patriótico, devoto. Um homem cada vez mais amargurado com o rumo de um mundo a caminhar irreversivelmente para uma voragem materialista que arrasou o velho mundo dos valores que tanto prezava.

Poucos como Ford souberam colocar em imagens a angústia do desmoronamento de um mundo. O patriota John Ford sentiria que a vitória dos EUA na II Guerra precipitou essa queda? Que o triunfo do materialismo capitalista-marxista esmagou a réstea de valores tradicionais que ainda havia no seu próprio país? No seu último filme, a obra-prima “Sete Mulheres”, Ford leva-nos à China para mais uma reflexão sobre a barbárie, a incompreensão e a abnegação. Como deveria sofrer nos seus últimos tempos de vida aquele que exaltara as grandes vitórias do seu país, a marcha para oeste, a construção de um país e agora nos trazia aos olhos imagens de desespero, ganância, selvajaria. Antes, em diversas obras, já havia relativizado o retrato dos índios e, em “Sergeant Rutledge”, elevado a dignidade do negro americano, não com o apelo a quotas, não com chantagens torpes, mas sim com a exaltação da coragem e da honestidade, que são o primado dos homens verdadeiros e íntegros. À sua maneira ia abalando o mito do Velho Oeste. À sua maneira o mundo mudou e tragou os idealistas.

Como  era verde, o meu vale!

(Para o João.)

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