Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Entrevista a “O Sexo dos Anjos”

Posted by atrida em Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Prosseguindo a sua promoção da blogosfera nacional, o Manuel Azinhal entendeu por bem saber a minha opinião sobre diversos temas. Já o disse e repito: o Manuel, além de incansável impulsionador da blogosfera, foi e continua a ser uma referência para muitos de nós, pela sagacidade, inteligência, pertinência e combatividade de que dá mostras há cinco anos.

A entrevista, que reproduzo em seguida, foi publicada ontem n’ O Sexo dos Anjos (link).

a) O que é o “Odisseia“? Porquê “Odisseia“?
– O Odisseia é um espaço que criei após se ter esgotado o projecto Horizonte, que tivera a mesma função face ao Santos da Casa que, na sua versão II estava longe do fulgor da versão I, que continua a ser o único projecto blogosférico que me realizou. É verdade que na altura estava numa fase da minha vida em que tinha mais tempo livre, podendo investir várias horas por semana em pesquisas que muito enriqueceram o blogue. Por outro lado, 2004 e 2005 foram anos de grande euforia na blogosfera, um entusiasmo que já desapareceu e que possivelmente nunca mais tornará.
Esta variedade de páginas que se foram alternando revela a minha instabilidade a nível de projectos mas também a incapacidade de deixar o meio, seja pelo vício da escrita, seja pela necessidade de não frustrar amigos e leitores fiéis, tudo factores a contar bem mais que a convicção de que possa fazer algo de efectivamente útil para que Portugal e a sua dignidade não sejam coisas do passado.
O nome “Odisseia” foi escolhido como imagem para a situação de um país que deveria estar em demanda da sua Ítaca – a sua grandeza e exemplo de País digno dos seus maiores -, mesmo que tal viagem, como a de Ulisses, pareça interminável, com inúmeros obstáculos que, em alguns casos, quase convenceram o herói de que nunca tornaria ao lar. Na verdade, sobreviver a um Cíclope ou aos cantos das sereias parece bem mais fácil que levantar uma Nação envilecida e hoje indigna da sua história.
b) É um blogue que navega à bolina ou tem um projecto próprio? Qual?
– Se calhar nem uma coisa nem outra. O projecto, em linhas gerais, seria não deixar morrer a ideia acima mencionada mas, pelo desânimo por tudo o que nos rodeia, acabo por deixar o barco muitas vezes à bolina, se calhar à espreita da brisa favorável. Outras vezes refugio-me na cultura, nas artes e letras, para manter temas que se calhar são bem mais interessantes para reflexão que listar as trafulhices dos democratas que fazem de coveiros de Portugal.
c) Viaja melhor quem viaja sozinho? Ou são melhores os blogues colectivos?
– Ambos têm virtualidades. Um blogue individual expõe um universo próprio, que pode ou não ser coerente e interessante de se partilhar; os blogues colectivos são projectos em comum em prol de algo que se pensa alcançar melhor trabalhando em conjunto. Na blogosfera há óptimos e péssimos exemplares de ambos.
d) É verdade que a cultura precede a política? E que as transformações políticas são anunciadas na literatura?
– Em muitos casos assim é. A Revolução Francesa, a bolchevique ou a nossa dos cravos pareciam anunciar-se nas páginas da Enciclopédia, de Dostoievski ou de José Gomes Ferreira, para dar apenas alguns exemplos. Mas a literatura mostra uma inquietação, um mal estar ou simplesmente uma conspiração em curso, não é ela em si, necessariamente, um factor detonador. Como os historiadores inconformistas demonstraram, as revoluções surgem de conspirações na sombra que podem levar décadas a medrar, englobando amiúde facções que, na aparência, são inconciliáveis, o que tem o efeito frequente de que aquilo que é anunciado no seu eclodir não ser realmente o que se pensa implementar. Dito isto, hoje em dia qualquer um que pretenda lutar contra um sistema cuja característica e motivação básicas é a eliminação das Nações, deve privilegiar a acção e divulgação culturais e não enredar-se num sistema político onde mesmo os maiores sucessos (aparentes) não logram abalar as fundações do regime – frequentemente reforçam-no mesmo. Basta pensar o que é a França hoje após três décadas de afirmação do Front national.
e) Parece-lhe que a internet pode constituir um quinto poder? Ou pode ser o primeiro?
– Parece um lugar comum dizê-lo mas num país como o nosso em que pouco se lê, em que se não cultiva a reflexão e em que não há preocupação com a coerência e persistência na afirmação de princípios, a internet parece mais uma trincheira onde se debatem as facções que desdobraram a luta que já conduziam nas assembleias políticas, nos jornais, nas lojas. Os poucos que aparentemente se preocupam com a cultura não hesitam em usar as mais baixas armas (desonestidade intelectual, demagogia, insultos gratuitos) nas suas lutas mesquinhas. A internet passou a ser apenas mais um meio nessa luta.
Só na área dita nacional é que ela parece ter sido realmente uma revelação, pois permitiu divulgar autores e ideias que estavam confinados aos alfarrabistas, aos textos policopiados, aos jornais confidenciais. Por isso, é um meio inestimável para todos os que se não resignam a esta podridão anti-nacional que governa a vida dos povos ocidentais.
f) Os homens de direita não são feitos para a política? Ou não o são para tempos mornos? Só as circunstâncias excepcionais mobilizam a direita política?
– Se pensarmos em “homens de direita” como aqueles que crêem que qualquer sociedade sã deve ser hierárquica, pelo mérito e não pelo privilégio (familiar ou económico) e que não pode dispensar o melhor da Tradição no seu ordenamento, se calhar chegamos à conclusão de que essa é uma espécie em vias de extinção. Hoje os chamados nacionalistas albergam mais gente que – alguns mesmo sem o saberem – são de esquerda, têm o “mind set” da esquerda; infelizmente confunde-se capitalismo globalizado com economia de mercado – algo que denuncia fraca formação teórica e ainda menor reflexão – e parte-se para o “socialismo”, seja o socialismo nacional ou apátrida, como solução mágica. Desdenham-se os empreendedores honestos – que são das coisas que este ou qualquer outro país mais precisa – e apresenta-se a cartilha socialista como panaceia; tudo isto denuncia uma grande preguiça – preguiça mental e preguiça de quem nunca quererá arriscar, fazer algo de útil para a sociedade pelo esforço e repousa os seus anseios societários nos milagres dos gabinetes e na burocracia estatal. Enfim, mais uma face do problema e não a sua solução. Neste sentido, não é o grupo parlamentar do CDS que cabe num táxi mas sim os homens de direita.
g) Não lhe parece um fenómeno estranho este de durante mais de 40 anos Portugal ter sido governado, com apreciável estabilidade e consenso, por um regime de direita, e desaparecido este ter-se verificado de súbito que não só o regime não tinha ninguém como nem existia direita em Portugal?
– Nem por isso. Portugal sempre foi um país com um fundo anárquico, pouco disciplinado e que, entre duas crises em que o caos sobrevém, procura um guia que reponha alguma estabilidade e tranquilidade. Salazar desempenhou esse papel se calhar durante mais tempo do que os portugueses pretendiam; não conseguiu assentar as raízes de uma ideologia nacionalista, patriótica, hierárquica, tradicional; tão só desmantelado o regime já os portugueses se compraziam em desdenhar o que é nacional – um mal histórico – e em se adaptar aos ventos da globalização – que hoje, também com a maior desenvoltura, tanto criticam.
Os integralistas tinham razão quando diziam que um regime republicano, mesmo que num determinado período histórico tenha à frente um líder excepcional, será sempre incapaz de assegurar perenemente uma boa e sã governação porque lhe falta o garante desta: o monarca, como depositário da Tradição, dos valores que permitem a uma Nação sobreviver e da sua independência. Infelizmente, hoje os valores maçónicos, como uma praga, corroeram até o próprio corpo de valores monárquico, de tal forma que os reis sem trono só nos fazem dó, pela forma patética com que se tentam adaptar aos ventos da história. É uma comédia trágica.
h) Qual a explicação para a ausência da direita na vida política portuguesa, mesmo passados mais de 30 anos sobre essa formidável desaparição massiva?
– Creio que atrás já deixei algumas pistas para responder a esta questão. Refiram-se o baixo nível cultural da chamada direita, que não consegue passar para as gerações mais novas valores coerentes; a ditadura cultural de esquerda, infelizmente bem eficaz, conseguindo deslocar o centro ideológico para posições que há trés décadas seriam seguramente de esquerda, senão mesmo de extrema-esquerda; e, também grave, a ilusão que foi a identificação com a direita de sectores que apenas estavam apostados em lutar contra o comunismo e a Constituição de 1976 para salvaguardar os seus interesses materiais; aliados provisoriamente à direita ideológica, possivelmente nutriam quase tanto desprezo por ela como pela esquerda. Por isso, talvez não se deva falar em “desaparição massiva” mas sim em “ilusão massiva” que foi pensar-se que por sermos um país católico a maioria silenciosa seria convictamente de direita. Na verdade, o português é bastante crédulo e vai sempre atrás de quem lhe vende melhor um produto ideológico.
i) A blogosfera de que somos parte, já com mais de 5 anos, trouxe algo de novo? Quais os méritos que lhe atribui, e quais as insatisfações que mantém em relação a ela?
– A blogosfera, no meio de muitos espaços numerosos de facciosismo e fanatismo, tem sido uma surpresa agradável nas situações, felizmente não tão pouco numerosas, em que consegue expressar livremente opiniões e correntes que só muito pontualmente poderiam chegar a um jornal, uma rádio ou um programa de televisão, com a independência de quem não procura outra coisa que, com verticalidade, denunciar iniquidades do regime ou promover ideias e pensamentos completamente censurados pela mídia. É gratificante constatar-se como ainda há umas boas dezenas de pessoas com convicções firmes e com independência de pensamento, que não aceitam-se confinar-se ao molde politicamente correcto que tenta trucidar a liberdade de pensamento. Não falo em liberdade de expressão mas sim de pensamento pois o pc procura actuar na mente das pessoas antes da formulação de uma reflexão, condicionando a própria forma de desenvolvimento de uma ideia. É sem dúvida uma maneira tão eficaz quanto sinistra de tornar as pessoas uns cãezinhos de Pavlov, como o comunismo também tentou. É por isso que, estando fechadas todas as outras formas de comunicação, a blogosfera tem tanta importância, constituindo-se como um dos últimos redutos para os homens livres deste tempo.
Por isso, em vez de desfiar um rol de defeitos da lusa blogosfera, prefiro elogiar o papel que pessoas em maior número do que eventualmente julgaríamos têm tido na luta pela sobrevivência da dignidade humana – não a da cartilha pc mas a verdadeira.

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Uma resposta to “Entrevista a “O Sexo dos Anjos””

  1. Parabéns! Uma entrevista com cabeça, tronco e membros.

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