Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Amália

Posted by atrida em Sábado, Janeiro 3, 2009

amaliaEstá em exibição há cerca de um mês o filme português “Amália”, de Carlos Coelho da Silva, com Sandra Barata Belo no papel da diva do fado. Mais do que uma biografia linear, o realizador optou por uma sequência de acções em flashback, como um rememoriar de toda uma vida por parte de Amália Rodrigues, angustiada num quarto de hotel em Nova Iorque, sofrendo com a notícia da descoberta de um tumor.

A sombra da morte paira pelo filme, desde fatalidades familiares a amorosas, num desenrolar de factos que impediram a felicidade de uma mulher do povo, que amou o povo, que nunca se sentiu na sua pele em meios sofisticados e que pareceu toda a vida ter buscado o que nunca encontrou.

Vendo o filme é fácil de perceber porque é que a “crítica especializada” o arrasou: a película começa com o famoso concerto no Coliseu de Lisboa, menos de dois meses após o 25 de Abril. Alguns (poucos) espectadores chamam “fascista” a Amália; outro grita “já não tens cá o Salazar”; a cantora deixa a voz e a alma correrem e conquista o público. Há também uma sequência em que Amália está uns instantes à conversa com Salazar, sem que a realização mostre este último de uma forma antipática. Sacrilégio anti-democrático! E, para cúmulo, mostra-se uma cena em que Amália, à conversa com os seus amigos Ary dos Santos e Natália Correia, anuncia ter escrito uns versos para o Presidente do Conselho; os dois democratíssimos amigos abandonam indignados a sua casa, não sem que o poeta grite: »Versos? O que Salazar merece são balas!»

Apenas na pungente cena em que Amália consegue, com os seus bons ofícios, fazer libertar das garras da PIDE o seu amigo e compositor Alain Oulman, o regime é mostrado a uma luz menos favorável, embora de forma não ostensiva. E, tirando as cenas do concerto no Coliseu e do quarto nova-iorquino, nada é mostrado do pós-25 de Abril. O que, de resto, acaba por não dar a dimensão do ostracismo a que Amália foi votada nos anos subsequentes ao golpe de estado.

Mas, mais do que o aspecto político, o que o filme realça – e bem – são os dramas interiores de Amália, a relação conturbada com a mãe, a amizade com as irmãs, o seu casamento frustrado com Francisco Cruz e as relações com Eduaro Ricciardi, Ricardo Espírito Santo e com o futuro marido César. E, claro, a sua incomparável dimensão de artista, a sua voz única e a forma extraordinária como dava vida e alma às canções que interpretava.

Pode-se dizer, à guisa de conclusão, que “Amália” é um filme bem português, sobre uma personalidade portuguesíssima. Feito com firmeza na realização e emoção à flor da pele. E, como tal, merece bem ser visto.

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4 Respostas to “Amália”

  1. Maria said

    Ainda bem que faz uma crítica favorável a este filme. Não tinha intenção de o ir ver, mas sendo assim… Não vejo filmes portugueses desde há pelo menos trinta anos (só 2 minutos, se tanto, dos que volta e meia passam nas televisões) simplesmente porque não me agradam os temas, o modo como são realizados e menos ainda os artistas escolhidos – são sempre os mesmos, a maioria sem um pingo de talento, mas não obstante todos têm tido emprego assegurado para a vida, eles e as suas queridas famílias e respectivos amigos, desde que sejam chegados ao poder, como se calcula. A aprovação dos argumentos e interpretes feita pelas instâncias superiores é tácita e de parte a parte. Os outros, os que não se venderam ao sistema, pobres infelizes, insultados que foram de fascistas durante os anos que levamos deste pseudo-regime, não têm direito a trabalhar. Esplendorosa democracia, esta, que, diziam à boca cheia os da golpada, nos ia por fim libertar da férrea ditadura e garantir trabalho, sucesso e prosperidade a rodos para todos. Quanto às artes, o novo regime, dizia, ia-nos colocar no topo do mundo. Pois ia, então não ia… De facto foi, sim, mas para os da seita, estes têm estado lá bem em cima regaladamente desde há 3 décadas, os verdadeiros portugueses, esses, ficaram e ficarão a ver navios no alto de Santa Catarina enquanto esta bandalheira persistir. O que eles efectivamente fizeram foi acabar com um regime autoritário – que podia ter todos os defeitos do mundo mas, contràriamente a este que nos rege e que a odeia, pelo menos amava a Pátria acima de todas as coisas, nunca a vendeu a retalho nem nunca apunhalou o Povo pelas costas – para cìnicamente implantar uma ditadura das mais vergonhosas e repulsivas de que há memória na nossa História .

    Voltando ao filme, sou muito capaz de o ir ver. Primeiro porque gosto muito da Amália – quem não gosta (tirando os já nascidos anti-fascistas, mas até estes de há uns anos a esta parte já a vão suportando a contra gosto porque vêem que o povo genuíno nunca deixou de a adorar e muito embora eles tudo tivessem tentado nesse sentido, nunca conseguiram destruir-lhe o bom nome e enorme prestígio)? – depois e agora, porque acabo de ler uma crítica abalizada (às dos jornais, não lhes dou crédito algum) de alguém cuja opinião muito respeito, um verdadeiro Senhor da Blogosfera que, entre outras grandes virtudes, possui e cultiva uns magníficos anti-corpos em relação ao sistema e penso que igualmente ao regime, o que por si só é um selo de garantia absoluta. No que se refere a este tema e a muitos outros.

    Nota: A actriz que interpreta Amália está extremamente bem caracterizada e aparentemente “muito Amália”, pelo menos na foto que encima o texto. Pelo facto, parabéns ao/à maquilhador/a.

  2. atrida said

    Cara Maria, vá ver que vai gostar. Como escrevi, não é uma obra-prima mas é um filme muito bem feito, com alguns bons momentos e emoção q.b. Depois, não deixe de partilhar connosco a sua impressão do filme.
    Saudações.

  3. Optio said

    O Barros que se cuide. Temos aqui crítico d’arte.

  4. Baci said

    Grande Amália! viva a Portvgal!
    Portugal aos portugueses

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