Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

A destruição do legado cultural de um povo

Posted by atrida em Segunda-feira, Julho 6, 2009

jonathan_songrongO Público tem um curso uma bela iniciativa, a publicação de vários albuns-duplos de autores clássicos da revista Tintin. De Clorofila ao Coronel Clifton, de Luc Orient a Bernard Prince, são mais de uma dúzia os personagens e os autores contemplados.

De entre os que já foram publicados destacarei aqui o não muito conhecido Jonathan, criação do suíço Cosey. Jonathan é um europeu atraído pelo Oriente, onde se desenrola a acção das suas aventuras. O álbum editado pelo Público contém duas histórias nunca editadas entre nós, “O Sabor do Songrong” e “Ela, ou Dez Mil Pirilampos”.

A primeira decorre no Tibete, sob a opressão chinesa. Opressão essa que se faz especialmente sentir, desde os sinistros anos da Revolução Cultural maioísta, na destruição do legado cultural tibetano, em particular os livros, memória histórica do desventurado povo dos Himalaias.

Momento especialmente intenso de uma história contida em exteriorização dos sentimentos (de um pudor cada vez mais ausente da nona arte) é a apreensão indiscriminada de livros levada a cabo pelas autoridades ocupantes – livros esses destinados à destruição. Como não encontrar aqui um paralelo com a destruição de livros que a nova direcção da Imprensa Nacional pensa levar a cabo sobre o seu espólio que se vende a um ritmo incompatível com os critérios de eficiência – e porque não dizê-lo: de mercado – que regem as organizações deste mundo materialista até ao tutano? Pese a sua limitada eficácia, qualquer português consciente não deixará de assinar a petição em curso contra essa programada eutanásia de uma parte do nosso legado cultural.

E, para limpar a mente, nem que seja por alguns instantes, da estupidez instituída que nos rodeia, nada como mergulhar na obra de Cosey, sentir o ritmo de vida tibetano, entre os ciclos agrícolas e a devoção religiosa, entrecortados pela barbárie sino-comunista. Sentir, por sugestão, o sabor do songrong (cogumelo daquelas paragens), emocionarmo-nos com os olhares furtivos entre Jonathan e a bela e misteriosa chinesa – desconfortável na sua roupagem oficial de coronel do exército chinês. Sentir, enfim, como nossa a digna luta do povo tibetano.

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