Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Direita “revisitada”

Posted by atrida em Terça-feira, Julho 14, 2009

Uma vez por outra O Jansenista volta à carga, qual panzer como o que ilustra o seu mais recente postal, que versa a direita que ele apreende dos blogues. O autor fala num reencontro com uma tendência política que sabemos abraçou em tempos (início dos anos 80?) e da qual se foi distanciando, parecendo-me que com muito rancor.

É pena que esse rancor o leve a fazer apreciações que, a meu ver, se tornam pouco objectivas, visando descredibilizar completamenbte aquilo a que poderíamos chamar o nacionalismo português actual, quiçá de forma a confortá-lo na bondade das razões que o levaram a afastar-se dessa corrente ideológica.

E é pena, porque a dita corrente bem precisa de confrontar-se com um olhar externo, dado que o meio, apesar de propenso a cisões, vive uma espécie de pacto de não agressão dentro de cada grupo, em particular dada a exiguidade respectiva e consequente conhecimento e amizade entre os seus membros. Uma análise de um observador externo, como o Jansenista, seria por isso uma forma de os nacionalistas olharem para si próprios e para a sua estratégia.

Como disse, a análise do Jansenista prima pela imprecisão e mesmo pela falta de objectividade. Alguns exemplos:

– «a cumplicidade com todo o tipo de profanações idiotas do nosso adquirido civilizacional»: isto é verdade no que se refere a certas tendências neo-pagãs, que nutrem um doentio desprezo pelo catolicismo, ignorando boçalmente o seu papel na formação de Portugal e na sua afirmação como Nação; não é de todo o caso para quem reconhece esse legado e não tem problemas com a nossa história;

– «a veneração de todos os «losers» que a nossa sociedade foi produzindo nos últimos 50 anos» – se ela existe não é pelo facto de os homenageados serem “losers” (termo que os anglo-saxões aplicam com evidente desprezo a quem a história não sorriu, independentemente do que defendiam) mas pelo exemplo que dão de persistência perante as maiores adversidades.

Em consequência, a caracterização da direita que o Jansenista faz torna-se um exercício de generalização que roça a má fé:

– «envergonhadamente racista, porque não saberia compatibilizar o racismo com o nosso passado colonial» – na verdade, hoje há uma tendência que não é envergonhadamente racista mas declaradamente racista e que despreza o nosso passado colonial, e uma tendência que não só não é racista (apesar de não compactuar com a invasão  migratória actual) como se orgulha daquele passado;

– «envergonhadamente fascista, preferindo apresentar-se como “identitária”» – na verdade, a grande maioria dos identitários (credo que não professo) abandonou qualquer referência ao fascismo e aos regimes nacionalistas do passado, abraçando uma ideologia supostamente adaptada aos tempos modernos (entenda-se aos tempos de um Europa invadida por extra-europeus), baseada em critérios etnicistas que a leva a apontar como exemplo… o estado sionista!

– «envergonhadamente anti-semita (…) [e] anti-yankee» – a tendência supra-citada é tudo o contrário (são muitos os identitários que apoiam a doutrina Bush (e israelita) de ofensiva anti-islamista); os “outros”, os nacionalistas tradicionais, não abandonaram a sua desconfiança face a Israel e ao imperialismo americano;

– «envergonhadamente tirânica» – errado: os identitários louvam amiúde a democracia (!) e os tradicionalistas nunca deixaram de a verberar, de forma alguma “envergonhadamente”.

Poderia dar-se o caso de que, por estar afastado do meio há várias décadas, o Jansenista tenha caído nestas generalizações involuntariamente; mas elas acabam por ser tão grosseiras que só podemos recomendar-lhe uma análise mais atenta do meio e das suas diversas tendências. Os nacionalistas são poucos e todos se conhecem, mal ou bem; a maledicência, a mesquinhez e a intriga – tal como em todas as correntes políticas – é doentia e omnipresente. Por isso, um olhar exterior será sempre bem vindo, desde que objectivo e sem preconceitos apriorísticos.

Para finalizar, de lamentar a frase com que termina o postal: «as ideias é que não prestam – deixaram de prestar, por mérito próprio e por força das circunstâncias». As ideias não deixam de prestar, ou são boas ou são más. Abandoná-las “por força das circunstâncias” é a pior forma de demonstrar falta de força de vontade perante as adversidades. Quando a direita que o Jansenista tanto despreza fala em “fidelidade” não o faz por ter parado no tempo: é antes a manifestação de que haja o que houver o homem íntegro lutará até ao limite das suas forças por aquilo em que acredita, mesmo que à sua volta só veja abandonos e decadência.

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5 Respostas to “Direita “revisitada””

  1. Alpha said

    O JanSionista diz isso tudo?
    Não será porque em geral a dita “direita” não apoia as sempre renovadas canalhices de um tal de “povo eleito”?

  2. O Corcunda said

    Dizes muito bem. A direita bem precisa de um olhar de fora e sobretudo, de alguém com quem falar. O Jansenista não é essa pessoa e não o pode ser, sobretudo pelo esforço que faz para se distanciar da mesma. Ainda anda a exorcizar esses demónios…
    Utiliza no “post” uma estratégia duvidosa. Fala dos erros de uns e de outros como se do todo se tratasse, como se esta direita (creio que condensada no PNR), fosse tributária do Estado Novo.
    A primeira parte do artigo é aplicável a toda a sociedade portuguesa e não se percebe por que razão não possa ser uma crítica aos comunas ou aos bloquistas. A crítica seria certeira se identificasse a direita com o estado-geral do país (algo a que o Manuel Azinhal dedicou muita atenção lá para 2006 falando sobre o nacionalismo da era democrática). Assim, é só ressentimento.
    Já quanto à segunda parte, parece-me bem apanhada, em particular a parte em que o culto de Fátima aparece como extensão de um paganismo nacionalista. Não é raro ver-se gente para quem o Cristianismo é outra forma de Deus da Cidade, uma extensão dos seus “eus”.
    O problema do Jansenista é bem capaz de ser o mesmo. A incapacidade de ver além de si próprio, de não conseguir reproduzir no seu entendimento dos outros mais do que as categorias que lhe preenchem a mente. Não és liberal, és nazi. Não és democrata, és despótico. Contrarias o que digo, estás feito com eles com segundas intenções. Achas que o franquismo é melhor que a democracia? És a favor do garrote. Não há paciência!

  3. João Martins said

    Caro Atrida, com efeito a “análise” do Jansenista peca por ser elaborada desde uma perspectiva rancorosa, digamos mesmo de um renegado, contudo, venho aqui revelar a minha curiosidade sobre aquilo que, se bem entendi, o Átrida escreveu a respeito de uns “muitos identitários que apoiam a doutrina Bush de combate ao Islão”, ou por outras palavras, seria de interesse geral perceber quem são esses ‘identitários’, pois, enquanto conhecedor da mouvance identitária europeia, a verdade é que desconheço um só nome de um identitário que tenha proferido publicamente ou de forma reservada a sua adesão a uma suposta doutrina Bush anti-islâmica?

    Aproveito, porém, para dizer que fala-se muito de sionismo na área nacional, sem no entanto perceber-se que sionismo é esse, pois existem várias correntes sionistas, além disso, não deixa de ser igualmente curioso a tendência quasi patológica de uns poucos (sublinho poucos) para acusarem de pró-sionistas todos aqueles que na sua normal actividade política ou somente posicionamento político não reservam espaço ou tempo para viver obcecadamente com o malfadado sionismo em mente. A equação absolutamente primária desses é quem não fala de sionismo só pode ser pró-sionista.

    Por fim, resta-me dizer que enquanto identitário oponho-me frontalmente ao expansionismo islâmico na Europa, o qual não se efectua por via das armas mas antes através do peso demográfico e da chantagem cultural e religiosa. Islão nos países árabes, isso não me apoquenta, é problema dos árabes ou dos povos extra-europeus que abraçaram essa religião sanguinária e religião essa, importa referir, contra a qual a História de Portugal se forjou.

    Grato pela atenção e aguardo pela resposta à questão acima formulada.

    Saudações.

  4. atrida said

    Caro João,
    Não sou especialista (nem o pretendo ser) do movimento identitário mas é um facto conhecido que Faye e seus simpatizantes têm fortes simpatias por Israel e que muitos identitários encaram a discriminação (que se aplica também insidiosamente entre os próprios judeus) étnica vigente naquele estado como exemplo para a Europa, como forma de a preservar etnicamente das invasões imigrantes. E a agressividade de Bush e seus acólitos para com o islamismo foi também muito bem vista entre alguns identitários (notou-se isso em alguns blogues portugueses). Admito que publicamente os principais responsáveis identitários o não tenham manifestado, mas muitos militantes de base fizeram-no.
    Quanto à sua oposição ao expansionismo islâmico na Europa, ela não é exclusiva dos identitários, aliás será esse um dos pontos em que a chamada área nacional não diverge…
    Saudações.

  5. Caro Átrida, agradeço a pronta resposta, mas terei de apresentar algumas objecções. Faye é um inspirador (por meio dos seus vários e xcelentes livros) para muitos identitários, entre os quais eu próprio, porém, Faye embora se dirigindo a identitários e mesmo nacionalistas (em França os nationaux), nunca se definiu a si próprio como identitário.
    Pergunto, acaso leu o livro La Nouvelle Question Juive? Livro polémico (basta atentar no atrevimento do título), que lhe valeu acusações dos mais diversos sectores, inclusive de alguns grunhos em Portugal que não leiem nem entendem Faye, até porque desconhecem a língua francesa. Faye aposta pela permanência do Estado de Israel e percebe o sionismo como o nacionalismo (a todos os títulos exemplar na minha opinião) dos judeus. É isto condenável? Em momento algum Faye apoiou Bush e a sua doutrina (ao contrário de Bruckner), mas os anti-judeus (o anti-sionismo é um eufemismo para esconder o anti-juadismo) mais primários não perdem tempo em adjectivar Faye disto e daquilo, utilizando as tácticas estalinistas (que agoram tanto idolatram) de eliminação de opiniões distintas.

    Afigurando-se pois então a acusação de filosionismo pela parte de identitários infundada, faço esta analogia; existem nacionalistas que apoiam Israel (Griffin e o BNP), será então legítimo alcunhar todos os nacionalistas de filosionistas? Não me parece.

    Os principais representantes da mouvance identitária europeia, Bloc Identitaire nunca expressaram qualquer opinião política sobre sionismo, nem pelo conflito israelo-palestiniano, pois a verdade é que isso em nada interessa aos nossos e os nossos são quem realmente interessa, cujos problemas que já enfrentam no seu dia a dia são em demasia para se preocuparem com esse tipo de assuntos. Claro que para grupinhos microscópicos de nostálgicos como o do lunático Bouchet tal ausência de condenaão do sionismo equivale a ser-se pró-sionista…

    Posto isto, espero ter contribuído para ajudar a esclarecer esta problemática.

    Saudações.

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