Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Demagogia eleitoral

Posted by atrida em Quarta-feira, Setembro 16, 2009

A demagogia é inerente à democracia. Baseando-se o poder no número de votos obtidos, todos os partidos procuram atrair eleitores. Os maiores partidos fazem-no por meio de promessas, os mais pequenos pela força da mensagem de ruptura – o que é facilitado pelo facto de provavelmente não serem eleitos e, mesmo que conseguissem um ou outro lugar no parlamento, por não terem meios de implementar o que proclamam.

Para estas eleições temos um PS apostado em fazer esquecer as promessas que rapidamente fez cair (da não subida dos impostos ao referendo sobre o Tratado de Lisboa, passando pela criação de 150 mil novos postos de trabalho), as medidas que chocaram a população (o fim das urgências em inúmeros centros de saúde, por exemplo) ou que antagonizaram grupos profissionais (professores). Num país tão anestesiado como o nosso, já poucos se lembram da promulgação da lei do aborto, quando a anterior lei contemplava muito razoavelmente três situações de excepção à sua proibição. E, com o ritmo de caracol do nosso sistema jurídico, pelo mesmo caminho irão os escândalos em que Sócrates está envolvido.

O PSD aparece com um discurso menos polido do que o habitual, fruto da maior frontalidade (e quiçá impreparação mediática) de Ferreira Leite, que pode algo exageradamente fazer crer que estamos na presença de uma segunda Mrs. Thatcher. Presa do aparelho e tendo que fechar os olhos a algumas situações que certamente não são do seu agrado, ainda assim tem assumido sem tergiversações a sua oposição aos projectos faraónicos em que os socialistas estão empenhados (e querem empenhar o futuro do país), pondo o dedo na ferida dos interesses espanhóis e seus serventuários deste lado da fronteira (custa-me escrever “portugueses”), o que se saúda.

Do CDS pouco se pode esperar de novo e benéfico. O dom da eloquência de Portas não consegue disfarçar o seu oportunismo, as suas convicções frágeis, os podres do passado e a flutuação da sua agenda ao sabor das conveniências.

À esquerda, o BE parece assustado com a possibilidade de deixar de progredir nas votações à medida que, conquistadas as franjas mais radicais do eleitorado, se constate ser difícil atrair votantes mais “moderados”. E para agradar a estes arrisca-se a perder votos dos primeiros. O PC deve consolidar a sua votação, sem grandes sobressaltos, beneficiando talvez marginalmente da situação económico-social.

Também pouco de novo nos pequenos partidos, desde a pseudo-irreverência do PCTP, partido herdeiro de uma ideologia que não tolerava qualquer irreverência, ao PNR. PNR que continua a bater na tecla da imigração, problema real mas que não é o mais grave que enfrenta a sociedade portuguesa na actualidade. E a associação criminalidade-imigração é simplificadora pois há também altos índices de criminalidade em regiões do país onde a imigração tem pouca expressão. Do ponto de vista económico quase todas as suas propostas são impossíveis de aplicar à luz dos acordos comerciais existentes ou da legislação actual. Ainda assim, é o único partido que claramente se declara pela independência nacional.

Para terminar esta breve nota sobre o circo eleitoral, como não evocar o palhaço de serviço, um candidato de um partido dito monárquico que pretende… “ajudar a república”?

Portugal bateu mesmo no fundo.

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12 Respostas to “Demagogia eleitoral”

  1. Está tudo pela hora da morte, está. Vou votar CDS, mas se mais uma vez me desiludir, acabou-se; até porque tenho esperança num novo partido que começou a delinear-se…

    Caro Atrida, obrigada pela sugestão de leitura.

  2. Diogo said

    Não, meu caro! O circo é igual em todo o lado. Quem manda é o poder financeiro. Os políticos e os jornalistas são apenas fantoches a soldo.

  3. pedro guedes said

    Meu caro amigo: eu vou votar no PNR. Aliás, se não sufragasse a candidatura do José Pinto-Coelho nem sequer metia os pés na secção de voto.
    Deixa-me fazer apenas um pequeno reparo. Dizes que a imigração é um problema real mas não é o único nem o principal. Muito bem: vê no Terra Portuguesa (canto superior direito) os autocolantes e folhetos de campanha. Vê também as seis prioridades que o partido elencou, por esta ordem:Economia; Educação; Família; Justiça; Imigração e Segurança. Ora, se mencionas com destaque 1/6 das prioridades como sendo um problema real mesmo não sendo o mais importante… posso deduzir que estás de acordo com os princípios da Oposição Nacional ao Sistema? 😉
    Um abraço!

    De onde concluis essa insistência na imigração?

  4. atrida said

    Caríssimo Pedro, respondo com o blogue cuja leitura sugeriste, a começar pelo nome do mesmo… Depois, na referida página listam-se os temas mais vezes abordados: PNR (140), criminalidade (90), um vago “sociedade” (65), imigração (44). JPC mencionou no Prós que a principal causa para a criminalidade é a imigração; juntando a+b, este último tema acaba por ser, directa ou indirectamente, o mais abordado no blogue oficial.
    Se insisto nisto é porque, mal ou bem, o partido continua a ser associado ao racismo, o que só afugenta o eleitorado; e não basta o comprazimento com a desonestidade mediática pois nem sempre a abordagem do tema por parte do partido foi a mais equilibrada.
    A ascensão do FN, do VB, do FPO, etc. baseou-se sobretudo no ataque à imigração; em Portugal, onde o fenómeno (por enquanto) ainda não é alarmante e onde o preconceito racial é menos arreigado, não sei se a estratégia colherá assim tantos frutos.

  5. atrida said

    Cara Cristina, que partido (projecto) é esse?
    Tenho discutido com o Pedro porque é que patriotas como a Cristina não sentem empatia (ou simpatia) pelo PNR. Talvez pudesse dar-nos uma ideia, que sem dúvida deveria ser tema de reflexão para todos.
    Espero que tenha sorte em encontrar o livro.

  6. atrida said

    Diogo, infelizmente desta vez sou tentado a dar-lhe razão. Os poucos jornais a nível mundial que remam contra a maré detectam-se facilmente: pela ausência de publicidade nas suas páginas.

  7. Diogo said

    Infelizmente?

  8. Vou enviar-lhe um email com o tal novo projecto…

  9. atrida said

    É uma maneira de dizer, Diogo. Normalmente acho-o demasiado taxativo e quiçá dogmático nas suas afirmações, só por isso.

  10. atrida said

    Fico a aguardar, Cristina…

  11. Palhaço Merdologista Lusitano said

    A extrema-direita xenófoba tipo LePen, BNP, NPD é uma camisa importada que não serve a Portugal, país que é, E SEMPRE FOI, mais 3º mundo que outra coisa – dependente, subserviente, povo pobre com elites muito ricas, e corrupto. Os problemas actuais confirmam e o resto é conversa.

  12. Clica lá no meu site e verás a verdadeira causa da decadência do “nacionalismo” português.

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