Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Archive for the ‘Céline’ Category

Cinquenta anos de uma obra-prima

Posted by atrida em Sábado, Janeiro 8, 2011

Nord : Collection Folio, 1988.Em 1960 Céline publicava “Nord”, segunda parte da que viria a ser conhecida como a “trilogia alemã”, retrato apocalíptico do fim do III Reich. É uma obra em que os desastres que sucedem a toda a volta, e em particular ao escritor, sua mulher Lili, ao amigo Le Vigan (e ao gato Bébert!), são retratados com um sentido de humor fantástico, tornando-se a leitura um exercício extraordinário de sensações tanto trágicas como cómicas.

Aquilo a que poderíamos chamar a “banda sonora imaginária” da obra mais não é que o som das bombas que caem sobre Berlim em quase permanência. A sensação física é do estrondo que aquelas provocam. A sensação visual são as ruínas da cidade (na parte inicial da obra) e as extensões infindas das desoladoras planícies de leste.

As figuras humanas são, como sempre em Céline, uma amálgama de gente procurando sobreviver, de mesquinhezes, de procedimentos sórdidos e de um lampejo ou outro de humanidade e daquela nobreza de carácter que rareia habitualmente e mais ainda em momentos de catástrofe. O sentimento persecutório que persegue o escritor maldito está ao rubro, com meio mundo a desejar o seu massacre…

A grandiosidade desta obra está na forma original como retrata o fim de uma civilização, simbolizado pela figura nobre da velha alemã que trava amizade com Lili e a quem permite dançar ballet no seu quarto situado numa torre…

Esta obra grandiosa tem uma edição bem recente em português, da Ulisseia.

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Céline: os últimos segredos

Posted by atrida em Sábado, Junho 21, 2008

A revista Lire acaba de publicar um número especial integralmente dedicado à figura e à obra de um dos mais geniais escritores do século XX, Louis-Ferdinand Céline.

Trata-se de um número magnífico, em que se procura simultaneamente enquadrar a figura e a sua obra – o que é o ideal para os iniciados -, ao mesmo tempo que se aprofundam outras facetas e detalhes históricos, que surpreenderão mesmo os célinianos mais fanáticos! Tudo recheado de belas fotografias, de que destaco a extraordinária foto a cores, de página inteira, que mostra Céline e Marcel Aymé conversando sentados debaixo de uma árvore. Dois gigantes! Também não falta a famosa fotografia de Céline junto a Mussolini, por ocasião de uma recepção do Duce a uma delegação de médicos da Sociedade das Nações, de que fazia parte Céline.

Começando por algumas curiosidades, a Lire fala-nos dos preços incríveis que atingem obras de Céline em leilão, desde os 2000 euros pelo livro médico “La quinine en thérapeutique” (de 1925) aos 2 milhões de euros (!) por que foi vendido o manuscrito de “Voyage au bout de la nuit”! Outra, conhecida dos célinianos, foi a nomeação de Céline por parte do Presidente Laval para governador do pequeno território de Saint-Pierre et Miquelon… Mais à frente podemos ver a reprodução de um retrato do artista quando jovem, em 1916, obra de uma admiradora.

Curiosa também a citação de “Les Beaux Draps” em que Céline preconiza a aplicação da semana de trabalho de 35 horas, algo posto em prática pelo PSF há meia dúzia de anos… E sabia que a expressão “bla, bla, bla” foi inventado pelo bretão Céline? Pois ela surge em… “Bagatelles pour un Massacre”, o panfleto que tornou Céline maldito! E sabia que Jim Morrisson, o vocalista dos The Doors, era um admirador da obra céliniana e que a hipnotizante canção “End of the Night” (do primeiro álbum, de 1967) é uma referência explícita ao primeiro romance de Céline?!

O biógrafo de Céline François Gibault (a cuja obra já aqui me referi) concede uma notável entrevista em que percorre toda a vida do escritor, mostrando a sua impressionante erudição céliniana. Outra peça notável na revista é um excerto da auto-biografia de um ex-oficial SS amigo de Céline, Hermann Bickler, nem mais nem menos que a pessoa que arranjou o visa necessário para o escritor fugir para a Dinamarca.

Destaque para uma entrevista imprevista coma baronesa de Belleroche, que privou com Céline em Baden-Baden. Nessa época uma vaporosa jovem mulher, que punha os cabelos em pé aos homens que a viam na piscina com um fato de banho diferente todos os dias, Maud de Belleroche namorava com Jean Luchaire, que lhe disse para a deixar, pois com ele ela não teria futuro. Luchaire foi, como sabem, fuzilado após a libertação. Com um sentido de humor contagiante, a anciã que afirma sem rodeios «sim, fui fascista, amo a força da vontade (“la volonté de puissance”)» (a não concordância nos tempos verbais denuncia que o bichinho ainda lá mora…) conta alguns episódios daqueles dias conturbados de 1944.

Temos também uma evocação de Serge Perrault, então jovem amigo do casal Destouches, e que esteve com Céline poucas horas antes da sua morte. Outro dos momentos alto da revista é a reprodução de várias páginas do manuscrito de “Voyage au bout de la  nuit”, que se julgava perdido e que surgiu ao conhecimento público em 2001.

Para os menos documentados em Céline relembra-se o incrível jantar dele e do seu amigo Gen Paul na embaixada alemã, em plena ocupação, em que os dois escandalizaram em absoluto os alemães presentes, ao mesmo tempo que os franceses (entre os quais se contava o ministro Fernand de Brinon) se continham para se não escangalharem a rir com o número de imitação de Hitler por parte de Gen Paul. Se Émile Brami, que escreve a nota biográfica que vem no DVD que o amigo Nonas aqui publicitou, acha que Céline «estava fascinado pelo exército alemão, a sua força e disciplina» e estava perto da ideologia nacional-socialista, não deixa de ser verdade que o espírito anarquista de Céline foi uma constante da sua personalidade e a imagem de marca da sua total independência.

E para quem nunca a leu, publica-se na íntegra a entrevista que relançou Céline em 1957. Foi para a revista de esquerda (!) “L’Express” e a entrevistadora, Madeleine Chapsal, aceitou recordar para a Lire esse dia inesquecível.

Este número especial é um perfeito regalo que deliciará quem o ler. Os célinianos têm à sua disposição horas de leitura fascinante.

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Céline e Jünger

Posted by atrida em Segunda-feira, Abril 28, 2008

O amigo Duarte, a quem aproveito para dar os parabéns pelo 4º aniversário do Pena e Espada, evocou neste postal as péssimas relações entre dois dos maiores vultos das letras do século XX: Céline e Jünger. Recorrendo ao terceiro volume da magnífica biografia do primeiro (1ª edição: 1985), obra de François Gibault, proponho aos leitores o historiar desse conturbado relacionamento.

Tudo começa com o processo intentado por Céline, em 1951, contra as Éditions Juliiard na sequência da publicação do “Diário” de Ernst Jünger. Gibault evoca a experiência de ambos os escritores na I Guerra, salientando também como eram diferentes.  Jünger era um «oficial em alma, homem de ordem, grande burguês (…) [e] mantivera-se ligado às tradições culturais e liberais do Sacro-Império e nunca se associou a nenhuma das grandes histerias (sic) de Adolf Hitler –  que de resto caracterizou em “Falésias de Mármore” na personagem de Kniebolo – e que ele considerava uma verdadeira encarnação do Diabo. Guardadas as devidas proporções, também ficou apavorado pela figura de Céline. Os dois nada tinham para se poderem entender e a fantasia desabrida de Céline chocava profundamente o oficial alemão sempre respeitoso das boas maneiras.»

O “Diário” de Jünger contém várias referências a Céline, todas pouco abonatórias do grande escritor: «7 de Janeiro de 1942: tarde passada na casa de Poupet (…) Conversação sobre Melville, Fabre, Cocteau, Hercule e o horrendo Céline.» E chegava a mencionar o boato de que Céline torrava todo o dinheiro que ganhava com os seus livros com prostitutas.

Outro exemplo da aversão do germânico pelo francês: «O doutor X [Céline] falou-nos então da sua prática, que se parece distinguir por uma acumulação de casos sinistros. De resto ele é bretão – o que confirma a minha primeira impressão de que ele é um homem da idade da pedra (sic). Visita incessantemente as fossas de Katyn [o que de modo algum corresponde à verdade, Céline nunca as visitou] (…) parece evidente que tais locais o atraem.» Como vemos, o pior exemplo de um livro de memórias: pegar-se em boatos sem fundamento para denegrir alguém que se detesta.

Mas o pior estava para vir com a edição em francês do “Diário”: evocando o seu primeiro encontro com Céline (7 de Dezembro de 1941), no Instituto Alemão em Paris, Jünger escreve:«Céline, grande, ossudo, robusto (…) alerta na discussão, ou melhor, no monólogo. Há nele o olhar dos maníacos, virado para dentro, que brilha como no fundo de um buraco. (…) Diz da sua surpresa pelo facto de nós, soldados, não fuzilarmos, não enforcarmos, não exterminarmos os judeus- fica espantado que quem possua uma baioneta lhe não dê uso ilimitado.» No texto original do “Diário”, Jünger teve o cuidado de substituir o nome de Céline pelo de Merlim e noutras passagens substitui-o, como vimos, pelo de Doutor X, sabendo que Céline ainda não tinha sido julgado. Desgraçadamente, o tradutor francês trabalhou não sobre a edição alemã mas sim sobre uma versão datilografada não corrigida na qual ainda figurava o nome de Céline. Jünger só teve conhecimento do facto após a publicação do livro. E não perdeu tempo a escrever a Céline lamentando o facto e pondo-se à sua disposição para negar que na obra se lhe estivesse a referir: «Não aprovo as suas ideias mas longe de mim querer prejudicá-lo.»

Em relação à “citação assassina”, Gibault correctamente lembra que Céline frequentemente gostava de chocar os seus ouvintes, fazendo uso de um humor frione que quem o não conhecesse bem poderia ser levado a pensar que ele era realmente uma pessoa sádica.

Seguiu-se um processo, em que o advogado de Céline foi o futuro candidato presidencial Tixier-Vignancourt. O processo degenerou em enorme confusão, defendendo-se a Julliard como pôde. Céline desabafou por carta a Paulhan: « De quem é que eles estão a falar? Eles não me conhecem, na verdade! Ultrajam-me pela ignorância do meu carácter – todo de granito.» Céline vem a desisitir do processo.

Gibault evoca ainda um incrível encontro, em 1956, entre Céline e o secretário particular de Jünger à época do processo, Armin Mohler, que se fez acompanhar por um jornalista suíço. O escritor mostrou-se apático e mal falou. Quando Mohler revelou quem era «o efeito foi extraordinário. Pela primeira vez Céline levanta a cabeça, os seus olhos fixam-se nos meus e da sua boca sai uma lista glacial de epítetos, esses epítetos que encontramos nos seus livros. Duas palavras são recorrentes: “Esse bochezeco, essa espécie de chui”. Depois, voltou ao seu torpor, do qual só saíu por altura das despedidas (…): “Os franceses! Mas já não há franceses! Eu sou o último dos franceses…”»

Quanto a Jünger, em carta enviada a Gibault em 1978, parece ter nuanceado um pouco a sua opinião sobre Céline: »Embora reconheça em Céline um dos melhores conhecedores contemporâneos da infâmia moderna (…) creio no entanto que lhe faltou manter a indispensável distância dessa mesma infâmia. Nada disso retira o que quer que seja à sua obra, e torna-a mesmo mais intensa, embora traga algum incómodo à sua leitura.»

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