Odisseia

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Céline: os últimos segredos

Posted by atrida em Sábado, Junho 21, 2008

A revista Lire acaba de publicar um número especial integralmente dedicado à figura e à obra de um dos mais geniais escritores do século XX, Louis-Ferdinand Céline.

Trata-se de um número magnífico, em que se procura simultaneamente enquadrar a figura e a sua obra – o que é o ideal para os iniciados -, ao mesmo tempo que se aprofundam outras facetas e detalhes históricos, que surpreenderão mesmo os célinianos mais fanáticos! Tudo recheado de belas fotografias, de que destaco a extraordinária foto a cores, de página inteira, que mostra Céline e Marcel Aymé conversando sentados debaixo de uma árvore. Dois gigantes! Também não falta a famosa fotografia de Céline junto a Mussolini, por ocasião de uma recepção do Duce a uma delegação de médicos da Sociedade das Nações, de que fazia parte Céline.

Começando por algumas curiosidades, a Lire fala-nos dos preços incríveis que atingem obras de Céline em leilão, desde os 2000 euros pelo livro médico “La quinine en thérapeutique” (de 1925) aos 2 milhões de euros (!) por que foi vendido o manuscrito de “Voyage au bout de la nuit”! Outra, conhecida dos célinianos, foi a nomeação de Céline por parte do Presidente Laval para governador do pequeno território de Saint-Pierre et Miquelon… Mais à frente podemos ver a reprodução de um retrato do artista quando jovem, em 1916, obra de uma admiradora.

Curiosa também a citação de “Les Beaux Draps” em que Céline preconiza a aplicação da semana de trabalho de 35 horas, algo posto em prática pelo PSF há meia dúzia de anos… E sabia que a expressão “bla, bla, bla” foi inventado pelo bretão Céline? Pois ela surge em… “Bagatelles pour un Massacre”, o panfleto que tornou Céline maldito! E sabia que Jim Morrisson, o vocalista dos The Doors, era um admirador da obra céliniana e que a hipnotizante canção “End of the Night” (do primeiro álbum, de 1967) é uma referência explícita ao primeiro romance de Céline?!

O biógrafo de Céline François Gibault (a cuja obra já aqui me referi) concede uma notável entrevista em que percorre toda a vida do escritor, mostrando a sua impressionante erudição céliniana. Outra peça notável na revista é um excerto da auto-biografia de um ex-oficial SS amigo de Céline, Hermann Bickler, nem mais nem menos que a pessoa que arranjou o visa necessário para o escritor fugir para a Dinamarca.

Destaque para uma entrevista imprevista coma baronesa de Belleroche, que privou com Céline em Baden-Baden. Nessa época uma vaporosa jovem mulher, que punha os cabelos em pé aos homens que a viam na piscina com um fato de banho diferente todos os dias, Maud de Belleroche namorava com Jean Luchaire, que lhe disse para a deixar, pois com ele ela não teria futuro. Luchaire foi, como sabem, fuzilado após a libertação. Com um sentido de humor contagiante, a anciã que afirma sem rodeios «sim, fui fascista, amo a força da vontade (“la volonté de puissance”)» (a não concordância nos tempos verbais denuncia que o bichinho ainda lá mora…) conta alguns episódios daqueles dias conturbados de 1944.

Temos também uma evocação de Serge Perrault, então jovem amigo do casal Destouches, e que esteve com Céline poucas horas antes da sua morte. Outro dos momentos alto da revista é a reprodução de várias páginas do manuscrito de “Voyage au bout de la  nuit”, que se julgava perdido e que surgiu ao conhecimento público em 2001.

Para os menos documentados em Céline relembra-se o incrível jantar dele e do seu amigo Gen Paul na embaixada alemã, em plena ocupação, em que os dois escandalizaram em absoluto os alemães presentes, ao mesmo tempo que os franceses (entre os quais se contava o ministro Fernand de Brinon) se continham para se não escangalharem a rir com o número de imitação de Hitler por parte de Gen Paul. Se Émile Brami, que escreve a nota biográfica que vem no DVD que o amigo Nonas aqui publicitou, acha que Céline «estava fascinado pelo exército alemão, a sua força e disciplina» e estava perto da ideologia nacional-socialista, não deixa de ser verdade que o espírito anarquista de Céline foi uma constante da sua personalidade e a imagem de marca da sua total independência.

E para quem nunca a leu, publica-se na íntegra a entrevista que relançou Céline em 1957. Foi para a revista de esquerda (!) “L’Express” e a entrevistadora, Madeleine Chapsal, aceitou recordar para a Lire esse dia inesquecível.

Este número especial é um perfeito regalo que deliciará quem o ler. Os célinianos têm à sua disposição horas de leitura fascinante.

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