Odisseia

«Mas está oculto no seio dos deuses se voltará ou não, para se vingar deles na sua casa.» (Homero)

Archive for the ‘literatura’ Category

Cinquenta anos de uma obra-prima

Posted by atrida em Sábado, Janeiro 8, 2011

Nord : Collection Folio, 1988.Em 1960 Céline publicava “Nord”, segunda parte da que viria a ser conhecida como a “trilogia alemã”, retrato apocalíptico do fim do III Reich. É uma obra em que os desastres que sucedem a toda a volta, e em particular ao escritor, sua mulher Lili, ao amigo Le Vigan (e ao gato Bébert!), são retratados com um sentido de humor fantástico, tornando-se a leitura um exercício extraordinário de sensações tanto trágicas como cómicas.

Aquilo a que poderíamos chamar a “banda sonora imaginária” da obra mais não é que o som das bombas que caem sobre Berlim em quase permanência. A sensação física é do estrondo que aquelas provocam. A sensação visual são as ruínas da cidade (na parte inicial da obra) e as extensões infindas das desoladoras planícies de leste.

As figuras humanas são, como sempre em Céline, uma amálgama de gente procurando sobreviver, de mesquinhezes, de procedimentos sórdidos e de um lampejo ou outro de humanidade e daquela nobreza de carácter que rareia habitualmente e mais ainda em momentos de catástrofe. O sentimento persecutório que persegue o escritor maldito está ao rubro, com meio mundo a desejar o seu massacre…

A grandiosidade desta obra está na forma original como retrata o fim de uma civilização, simbolizado pela figura nobre da velha alemã que trava amizade com Lili e a quem permite dançar ballet no seu quarto situado numa torre…

Esta obra grandiosa tem uma edição bem recente em português, da Ulisseia.

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Censura literária contemporânea

Posted by atrida em Sexta-feira, Janeiro 7, 2011

Uma nova edição de “As Aventuras de Huckleberry Finn” censura o termo “nigger” pelo sentido pejorativo que contém. Mais um exemplo da estupidez contemporânea e do politicamente correcto, censurando-se uma obra que até condena a escravatura! Também significativo é o facto de a imprensa americana (como aqui) não escrever a palavra, designando-a simplesmente como “palavra N” (ou seja, palavra começada pela letra N).

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A infância, pátria perdida

Posted by atrida em Segunda-feira, Setembro 28, 2009

P-VandrommeA infância a que remete Tintin é para nós uma pátria perdida. Sabemos que aqueles que crêem são sempre traídos, que aqueles que se batem são sempre abandonados. Nós somos alguns a passar a mensagem. Nenhuma causa é justa, militamos a favor de imposturas. Retirámo-nos. Que o jogo continue sem nós. Como diz Céline, «o combate contra os mitos do tempo tornou-se impossível. Fazer de D. Quichote seria grotesco». Que D. Quichote regresse ao seu lar. O que nos agrada nos álbuns de Tintin não é Tintin mas o que resta quando Tintin desaparece: o anti-conformismo que não envelhece com as suas revoltas e que tem a coragem de as transformar em extravagâncias. Os nosso gestos irrisórios agitam-se burlescamente. Não iremos quebrar o espelho das nossas comédias. Simplesmente deixaremos de olhar para ele. Não há motivo para fazer caretas. Isso seria uma vaidade fatigante.

Pol Vandromme (1927-2009), “Le monde de Tintin” (1959).

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Pelo futuro

Posted by atrida em Quinta-feira, Março 12, 2009

«Trabalhou por amor do futuro que é como trabalham aqueles cujo aristocrático pudor moral os impede de descerem à tão feia festa de hoje.»

(Afonso Lopes Vieira sobre Luciano Freire.)

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Leituras paralelas

Posted by atrida em Terça-feira, Setembro 9, 2008

A leitura de “Paulina Vestida de Azul” de Joaquim Paço d’Arcos e de “O Homem Proibido” de Nelson Rodrigues oferece paralelismos muito curiosos. Paço d’Arcos escreveu a peça em 1948, enquanto que o pernambucano publicou o romance em fascículos, sob o pseudónimo Susana Flag, em 1951.

Em ambas as obras, duas mulheres muito chegadas disputam o mesmo homem amado. No caso da peça de Paço d’Arcos, mãe e filha; no caso de Rodrigues, duas primas. Naquela obra só muito lentamente o leitor vai adivinhando o conflito, ao passo que em “O Homem Proibido” se apercebe do choque desde as primeiras páginas. (Curiosamente, na versão de “Paulina” levada à cena no Teatro Nacional D. Maria em 1948 – encenação de Palmira Bastos – alguns diálogos foram suprimidos, dificultando ao espectador a compreensão para a acrimónia de Paulina ao longo de toda a peça.)

A escrita de Paço d’Arcos é escorreita, levantando o véu sobre as personalidades envolvidas na acção com grande subtileza; Nelson Rodrigues tem uma escrita muito doce, quase carinhosa com alguns personangens, espantando os leitores com a pontual eclosão de cenas de um dramatismo paroxístico.

Ambos os escritores situam a acção em meios sociais desafogados, Paço d’Arcos no seio de uma família da alta sociedade lisboeta, Rodrigues numa família rica do Rio de Janeiro.

Em Paço d’Arcos é difícil o leitor identificar-se com algum dos personagens, praticamente nenhum é credor da nossa afeição; em Nelson Rodrigues o leitor cedo sente carinho por quase todos os personagens, tanto com as suas atitudes dignas e elogiáveis como com as suas fraquezas. Naquele, a última página é alcançada com uma sensação de quase cansaço – não pela leitura em si, que decorre ligeira e é cativante – mas pelo desenrolar da acção e com a compreensão dos móbeis sórdidos que explicam os eventos; em Rodrigues, a última folha é passada com a tristeza de quem chegou ao fim de uma obra longa (quase 500 páginas) com o mesmo entusiasmo com que passou a primeira folha.

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Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

Posted by atrida em Segunda-feira, Agosto 4, 2008

Faleceu, aos 89 anos, o homem que melhor denunciou o sistema concentracionário soviético, que se manteve muito para além de Estaline. Tendo vivido por dentro o horror do gulag, Solzhenitsyn mostrou a força da (sua) literatura na denúncia dos horrores do comunismo, voluntariamente suavizados ou mesmo negados por gerações de intelectuais ocidentais aburguesados.

Exilado no Ocidente, Solzhenitsyn não se revelou um propagandista do mundo que o acolheu, antes denunciando o vácuo espiritual e o materialismo do “mundo livre”. Após a queda do comunismo, os seus constantes apelos a um regresso ao melhor da Tradição e ao um ressurgir espiritual do mundo foram acolhidos com desdém pelos fazedores de opinião e novos escravizadores das massas (não era Estaline que dizia que a cultura era a engenharia das almas?), mostrando que, se o sistema político comunista se desmoronou, os seus tiques totalitários e a sua vontade de controlar as mentes estão mais fortes do que nunca no campo que o combateu.

Solzhenitsyn viveu e morreu em mundos nos quais não se reconheceu, que combateu pela pena e que o desprezaram. Parece ser esse o destino dos homens livres.

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