Odisseia

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Posts Tagged ‘China’

60 anos de barbárie

Posted by atrida em Quinta-feira, Outubro 1, 2009

culrevCavaco já enviou os parabéns a Hu Jintao. Os jornais, em geral, falam da segurança apertada em torno das comemorações dos 60 anos da implantação do comunismo na China. Os maoístas chamam-lhe “libertação”. Por cá houve muitos, sobretudo em 74-75, quando a Grande Revolução Cultural Proletária entusiasmou jovens burgueses ocidentais, com epicentro na França (sempre o centro das aberrações ideológicas) e réplicas em Portugal. O filme “A Chinesa”, de Godard, alimentou os sonhos de instaurar um regime maoísta na Europa. Em prol do “homem novo”, muitos desejaram que por cá houvesse purgas monstras, humilhação pública de reaccionários, destruição do património cultural, demolição de igrejas – e assassinatos em barda.

Até Luis Buñuel, que não sendo comunista nutria alguma benevolência pela ideologia mais assassina da história, notava: «em Paris (em Maio de 68) os estudantes miavam (sic) “Mao, Mao”, como se realmente pretendessem a implantação de um regime maoísta em França».

Por cá faziam furor os filmes chineses (todos produzidos sob o rigoroso controlo da sra. Mao). Algumas das sessões acabavam em cenas de pancadaria. Ninguém queria ser menos comunista que o vizinho!

Tudo isto seria cómico se não fosse trágico. O aggiornamento de tantos entusiastas da época não se traduziu em muitos casos em arrependimento sincero. É vê-los por aí, com tiques na linguagem, com atitudes eivadas de mal disfarçado espírito totalitário. E, sobretudo, todos com sentimentos internacionalistas, sendo a União Europeia o substituto (imperfeito?) para as suas frustrações pós-Mao e pós – queda do Muro de Berlim.

cultural_revolution_buddha_burning

Sobre os crimes do comunismo, e do maoísmo em particular, nem um pio. Nada de trabalhos forçados. Nada de execuções sumárias. Nada de experimentações sociais e económicas (que geraram amiúde fomes e morte por inanição a milhões de pessoas). Nada de Tibete (afinal, uma região – já não um país –  pejada de monges retrógados). Nada de produtivismo, que subjuga por inteiro o homem – feito escravo – aos objectivos de crescimento económico definidos pelos “sábios” do comité central. Nada da urbanização desenfreada, com todos os problemas de desenraízamento, miséria, poluição. (Honra ao “i”, que sem meias tintas fala de Mao como “o assassino”.)

Nixon (a primeira abertura) e Bush pai (concessão do estatuto de “nação mais favorecida” no âmbito do comércio externo dos EUA) deram à China comunista o impulso para um crescimento baseado na exploração do homem, em gritante contraste com o hipócrita lema do comunismo: eliminar a dita exploração!

A China cresceu, tornou-se respeitada e temida. Continua um regime repressivo. O Ocidente cresce cada vez menos e torna-se cada vez mais repressivo. Ultrapassado no crescimento, o Ocidente vai a caminho de se aproximar cada vez mais da China no que às liberdades (à falta delas) diz respeito.

E ainda dizem que o comunismo morreu em 1989.

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A destruição do legado cultural de um povo

Posted by atrida em Segunda-feira, Julho 6, 2009

jonathan_songrongO Público tem um curso uma bela iniciativa, a publicação de vários albuns-duplos de autores clássicos da revista Tintin. De Clorofila ao Coronel Clifton, de Luc Orient a Bernard Prince, são mais de uma dúzia os personagens e os autores contemplados.

De entre os que já foram publicados destacarei aqui o não muito conhecido Jonathan, criação do suíço Cosey. Jonathan é um europeu atraído pelo Oriente, onde se desenrola a acção das suas aventuras. O álbum editado pelo Público contém duas histórias nunca editadas entre nós, “O Sabor do Songrong” e “Ela, ou Dez Mil Pirilampos”.

A primeira decorre no Tibete, sob a opressão chinesa. Opressão essa que se faz especialmente sentir, desde os sinistros anos da Revolução Cultural maioísta, na destruição do legado cultural tibetano, em particular os livros, memória histórica do desventurado povo dos Himalaias.

Momento especialmente intenso de uma história contida em exteriorização dos sentimentos (de um pudor cada vez mais ausente da nona arte) é a apreensão indiscriminada de livros levada a cabo pelas autoridades ocupantes – livros esses destinados à destruição. Como não encontrar aqui um paralelo com a destruição de livros que a nova direcção da Imprensa Nacional pensa levar a cabo sobre o seu espólio que se vende a um ritmo incompatível com os critérios de eficiência – e porque não dizê-lo: de mercado – que regem as organizações deste mundo materialista até ao tutano? Pese a sua limitada eficácia, qualquer português consciente não deixará de assinar a petição em curso contra essa programada eutanásia de uma parte do nosso legado cultural.

E, para limpar a mente, nem que seja por alguns instantes, da estupidez instituída que nos rodeia, nada como mergulhar na obra de Cosey, sentir o ritmo de vida tibetano, entre os ciclos agrícolas e a devoção religiosa, entrecortados pela barbárie sino-comunista. Sentir, por sugestão, o sabor do songrong (cogumelo daquelas paragens), emocionarmo-nos com os olhares furtivos entre Jonathan e a bela e misteriosa chinesa – desconfortável na sua roupagem oficial de coronel do exército chinês. Sentir, enfim, como nossa a digna luta do povo tibetano.

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