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De Aubervilliers à Cova da Moura

Posted by atrida em Domingo, Março 2, 2008

“Por uma vida melhor” é o título da exposição de fotografia patente no Museu Colecção Berardo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa (*). Nela se podem ver fotografias de Gérald Bloncourt sobre a emigração portuguesa para França, nos anos 50 e 60 do século passado. O autor, haitiano expulso do seu país ao tempo do regime de Duvalier, «permaneceu sempre sensível ao sofrimento do estrangeiro num país que não é o seu», segundo se pode ler na brochura de apresentação da exposição.

Há grosso modo três espaços fotografados: os Pirenéus, por onde passaram muitos clandestinos; estações de caminho de ferro, com famílias rodeadas de malas, aguardando por um comboio ou por que chegue um familiar ou amigo que os oriente na grande metrópole parisiense; e os tristemente famosos bidonvilles, onde se amontoavam casebres precários e se apinhavam portugueses em demanda de uma vida melhor. (Um dos subúrbios onde se instalaram foi Aubervilliers, para cuja câmara municipal Pierre Laval foi sucessivamente eleito com enormes maiorias desde os anos 20 até 1944.)

O preto e branco das imagens é notável, expressando tanto a angústia de um rosto adulto ou infantil, como a ingenuidade de crianças brincando ou o sorriso terno de uma avó. Omnipresente nos bidonvilles, a lama, símbolo da forma como viviam os emigrantes, símbolo igualmente de um país que os explorava ignominiosamente (é pelo menos essa a pretensão da exposição). Muitas vezes os bidonvilles eram o local de recrutamento de mão-de-obra para a construção civil, numa Paris e arredores em crescimento acentuado de apartamentos HLM (habitation à loyer modéré, isto é, habitação social) e não só, como demonstra uma fotografia de portugueses a trabalhar na Tour Montparnasse.

Já perceberam que a exposição não tem intuitos puramente documentais e estéticos. Nela se podem ver excertos de jornais da época, sobretudo jornais de esquerda ou mesmo comunistas, com a denúncia da condição dos portugueses. Reproduz-se até um cartaz da CGT (sindicato ligado ao PCF) onde se afirma que «o desemprego não desaparece com o fim da imigração – franceses e imigrantes: o mesmo combate pelo trabalho»). Um documentário de José Vieira, a que se pode assistir numa sala à parte, é acompanhado por uma música de José Afonso…

E anuncia-se já para o dia 10 de Maio uma sessão de nome “Olhos nos olhos com a Cova da Moura”, com apresentação de documentários. A intenção destes projectos não é mais que, em primeiro lugar comover os portugueses com a saga dos seus conterrâneos emigrantes, e depois fazer o paralelo com os imigrantes africanos residentes nos subúrbios lisboetas. Transpondo a mensagem da CGT só falta afirmar :«portugueses outrora, africanos hoje, o mesmo combate pela dignidade».

Mas se há algo que a exposição mostra, e que todos conhecemos, é a imensa dignidade dos nossos conterrâneos em condições tão adversas: no meio da precaridade (como hoje se diz)  o emigrante luso oferecia o seu trabalho, dava o litro, era disciplinado e empenhado na sua tarefa. Não incendiava carros, não traficava droga, não atacava a polícia , não fazia manifestações contra a “discriminação”; integrava-se na sociedade, respeitava (e até admirava) os seus valores. Por muita ginástica que se faça há paralelos impossíveis de estabelecer.

Seja como for, trata-se de uma exposição a não perder, com testemunhos comoventes, como cartas de emigrantes para as suas famílias e até um telegrama a dar a notícia da morte de um ente querido num acidente de trabalho. Não faltam igualmente livros sobre o tema, incluindo o famoso “A Salto” (1967) de Nita Clímaco.

(*) Até 18 de Maio. Entrada gratuita.

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