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A ilusão liberal

Posted by atrida em Segunda-feira, Setembro 29, 2008

Os recentes acontecimentos turbulentos no sector financeiro denunciam aquilo que o Corcunda, com mestria, descreve como o «resultado da péssima acção do Estado, que tem permitido que a vida económica das populações se jogue na sorte de investimentos de elevado risco e bastante desligado da sua capacidade de criar riqueza real. O Estado errou, claramente, por omissão, ao permitir que os bancos jogassem o dinheiro que lhes foi confiado, quase sem reservas, em autênticos jogos de azar.
Com efeito, a leviandade com que os bancos emprestam dinheiro só pode ser compreendida se tivermos em conta que hoje em dia aos gestores das empresas privadas (e cada vez mais, das públicas) são exigidos objectivos cada vez mais ambiciosos, quando não desligados da realidade, que os leva a expandir o negócio, muitas vezes sem bases sólidas; em consequência, o risco dos investimentos aumenta. A ilusão do crescimento infinito, que tantos males vem provocando na sociedade em geral (desperdício de recursos, estragos ambientais, exploração ganaciosa de funcionários e países, ausência de ética empresarial), abate-se agora sobre alguns dos seus maiores promotores: as sociedades financeiras.
Outra consequência é a percepção pelo público em geral de que o capitalismo é voraz e que, sem limites, acaba por condicionar toda a sociedade, manipulando a classe política e manietando a vontade dos povos. Os partidos e a ideologia da esquerda, não por acaso, vêm ganhando muita força vinte anos após o “fim do comunismo”.
Os liberais (no sentido europeu) caíram na teia das suas contradições: nos modelos económicos neo-clássicos, onde beberam todo o seu credo, o mercado é auto-regulatório, gerando uma eficiente afectação de recursos e promovendo o bem-estar geral. No limite, num contexto de crise como o actual, deve-se deixar definhar as empresas “ineficientes”, que as bem geridas continuarão no mercado e este recompor-se-á por meio de uma “destruição criativa”.
Em Portugal, num contexto que era o oposto de uma crise – os anos de “vacas gordas” do cavaquismo, grosso modo o período de 1987 a 1991 – foi praticada alegremente esta “destruição criativa”, com o encerramento de milhares de empreendimentos agrícolas e industriais, perante a indiferença dos liberais de serviço, que viam nisso um passo necessário para a modernização do país (é muito curiosa a forma como liberias e marxistas recorrem frequentemente ao termo “necessário”). Os mesmos, certamente, que agora defendem o apoio do Estado a um sector financeiro em risco de colapso; os mesmos que falavam na necessária recomposição do sector produtivo em vias de modernização, com o encerramento das empresas “ineficientes”, são os mesmos que agora defendem o apoio a um sector que demonstrou uma gestão descuidada e irrealista – mas é um sector que, caso entre em descontrolo, produzirá anos e anos de crise económica (vidé o Japão dos anos 90) e isso é um drama para o sector e as empresas em geral.
No fundo, e à laia de conclusão, pode-se afirmar que os liberais olham com desprezo para os “pequenos” (e estamos a falar de milhares de empresas que lutam com extremas dificuldades face a outras que, já tubarões, não se coíbem de recorrer ao Estado – via pacotes de salvação ou simples facilitismo na aprovação de projectos) enquanto amaciam os “grandes”, os que lhes pagam os artigos em que dão loas ao liberalismo e em que se conseguem contorcer até justificar aquilo que condenavam anteriormente.
A ilusão do Estado democrático no que concerne à economia “livre” é, além da anterior, que partilha com os ideólogos do mercado, a sua incapacidade de gerir uma crise económica grave num contexto de eleições a cada quadriénio; quem é que arrisca perder o poleiro do poder para manter a coerência das suas convicções sobre as virtualidades do mercado e a eventual necessidade de viver um processo de “destruição criativa”?

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