Publicado por fsantos em Quarta-feira, Dezembro 16, 2009
Definitivamente não existem condições para manter em actividade este blogue, um problema que de resto se faz sentir desde os tempos do “Horizonte”. Desta forma, este é o último postal que escrevo no “Odisseia”, projecto que não tem mais razão de ser. Ficam felizmente em actividade muitos bons blogues, cujas ligações à direita muito se recomendam.
Continuarei colaborando com outros projectos, nomeadamente com o recomendável Boletim Evoliano. Neste fim definitivo poupo os meus fiéis leitores a apelos de continuidade, fechando, pela primeira e única vez em sessenta e dois meses de blogosfera, as caixas de comentários.
Procurei dar o meu modesto contributo para que a ideia de independência nacional não fosse encarada pelos coevos como uma bizarria de saudosistas. Se se perde o orgulho pátrio, está escancarado o caminho para a servidão, objectivo último da modernidade. Esse esforço, quiçá inglório, pode e deve continuar noutros projectos, como já referi.
Por isso, este é apenas um até breve.
Viva Portugal!
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Publicado por fsantos em Quinta-feira, Dezembro 10, 2009
Há mais semelhanças entre Chavez e Sócrates do que à primeira vista possa parecer. Ambos estão agarrados ao poder. Ambos recorrem a meios obscuros para reforçar o seu poder. Ambos têm uma retórica de esquerda.
Chavez quer instituir uma república “popular” à maneira de Cuba (controlo das opiniões, controlo da economia, esmagamento das oposições), Sócrates apenas quer manter-se no poder o maior tempo possível. Mas isso implica partilhar alguns objectivos: precisamente o controlo da opinião e o controlo da economia. Por via destes, o esmagamento (ou estiolar) das oposições será uma consequência teoricamente alcançável.
O controlo da economia por parte de Sócrates passa nomeadamente pela pressão sobre as empresas de construção e sobre a banca. Aquelas, interessadas nas adjudicações milionárias, tendem a ser generosas nas contribuições para as campanhas políticas (e muitas vezes para as contas bancárias de alguns dirigentes), na expectativa / certeza da atribuição de alguns trabalhos às suas empresas. Já a banca passou a estar sob um controlo político só visto no pós 11 de Março de 1975: os homens de mão do PS estão na CGD; o Millennium BCP, com a entrada de Armando Vara após a denúncia (não inocente) dos escândalos com os off-shores, também anda a reboque do partido no poder. Assim, pouco ou nada se decide no maior banco público e no maior banco privado sem o aval do PS.
O controlo da opinião passou pelo controlo dos órgãos de comunicação social. E aqui os exemplos são gritantes: para além do escândalo da suspensão do Jornal Nacional da TVI (com o beneplácito hipócrita da socialista Prisa), temos o controlo do grupo de Joaquim Oliveira: DN, JN, 24 horas, TSF… O grupo do irmão do ex-seleccionador nacional (que esteve, como o próprio reconheceu “off the record”, envolvido no maior escândalo do futebol português: o caso N’Dinga), passando por dificuldades financeiras, viu as mesmas aliviadas por meio de um empréstimo de 300 mil euros. O banco “caridoso”: o Millennium BCP. O seu responsável pelas decisões de atribuição de empréstimos: Armando Vara. E assim se percebe facilmente a verdadeira subserviência dos órgãos de comunicação citados perante o governo, com destaque para o degradante DN, actualmente um verdadeiro cãozinho ao serviço do dono Sócrates, sem qualquer pudor. Ou para o 24 horas, que negou o seu pendor sensacionalista no que se refere ao caso Casa Pia. Porque será?
Podíamos também falar na domesticação do Diário Económico, da simpatia do grupo de Balsemão por Sócrates, da recente substituição do incómodo director do Público. Etc. Cabe aqui um louvor ao director do Sol, que denunciou uma manobra do PS para aliviar os problemas económicos do semanário de José António Saraiva. O “troco”: o abandono das investigações sobre o caso Freeport. E a atitude dúbia da AACS mostra a força do PS.
Não poderíamos deixar de falar na “justiça”. E se Chavez tem tido problemas em domá-la, só não se pode dizer o oposto de Sócrates porque o primeiro ministro está envolvido numa nebulosa de casos interminável, vindo à tona com a divulgação de novos escândalos. Porque a pusilanimidade do PGR e do presidente do STJ, bem como a postura protectora de PS e de Sócrates mostrada pelo inenarrável Marinho Pinto, mostram que os “almoços da justiça”, promovidos pelo anterior ministro da tutela envolvendo estas três figuras, terão sido bem proveitosos para o PS. Mas nada para a Justiça e para o país.
Mas isso são considerandos que não interessam ao poder. Aqui como na Venezuela.
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Publicado por fsantos em Sábado, Novembro 21, 2009
Não conheci pessoalmente Jorge Ferreira. Lembro-me da sua combativa presença na AR como líder parlamentar do CDS e do seu papel na fundação do PND, projecto que manifestamente desiludiu mas com o qual colaborou até ao fim.
Na blogosfera apreciei sempre o seu Tomar Partido, blogue irreverente como o autor e sempre na vanguarda da denúncia dos podres do regime. Nutria uma simpatia por blogues bem mais à sua direita (consulte-se a sua lista de ligações) – mostrando uma ousadia tão rara nestes tempos de mediocridade, cobardia e silêncios convenientes – e tinha sempre uma palavra amiga para comigo, não deixando de assinalar alguns textos que apreciava e os aniversários da minha presença como blogueiro – o último tem um mês. Partilhámos ainda a lista de contribuidores para a Alameda Digital.
Nesta hora triste quero lembrar um homem íntegro e um homem livre, que lutou pelas suas ideias e não, como tantos outros, por se locupletar com uma fatia do orçamento.
Que descanse em paz.
(O Insurgente listou os postais dedicados a Jorge Ferreira.)
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Publicado por fsantos em Terça-feira, Novembro 10, 2009
Yasser Arafat terá sido assassinado? A questão foi formulada n vezes, inconclusivamente. Que haveria muita gente, tanto do lado israelita como palestiniano, a desejar a sua morte parece evidente.
O nutricionista de Arafat nos últimos tempos de vida do líder palestino testemunha.
Pessoalmente, sempre me impressionou a fotografia (tirada em Amã, escala para Paris) que reproduzo neste postal, em que Arafat parece pressentir que nunca mais voltará à Palestina.
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Publicado por fsantos em Sexta-feira, Outubro 23, 2009
O Miguel Vaz e a Cristina toparam esta entrevista dada por uma novel deputada do PC, Rita Rato de seu singelo nome. O entrevistador, com paciência, vai tentando encontrar algum discernimento (ou ponta de honestidade) na criatura:
- Como encara os campos de trabalhos forçados, denominados gulags, nos quais morreram milhares de pessoas?
- Não sou capaz de lhe responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso.
- Mas foi bem documentado…
- Por isso mesmo, admito que possa ter acontecido essa experiência.
- Mas não sentiu curiosidade em descobrir mais?
- Sim, mas sinto necessidade de saber mais sobre tanta outra coisa…
Ora, ou a menina é de uma ignorância inaudita (o que não é de excluir), ou de um despudor a que não se pode chamar inaudito porque, como dizia um conhecido meu, um comunista só pode ser uma de duas coisas: ou um grande hipócrita – ou um grande ingénuo. A menina Rato nunca leu nada sobre a “experiência” (campos de concentração onde morreram milhares e milhares de prisioneiros são “uma experiência”) mas sabe, aos 26 anos, que a seguir ao desmoronamento da URSS (quando a moça tinha uns dez anitos) “o partido fez (sic) um congresso extraordinário”.
É verdade que teve bom mestre, afinal não foi o Dr. Barreirinhas Cunhal que, em plena perestroika, confessou que ignorava que tivessem existido gulags?
E, recuando ainda mais no tempo, tivemos o mestre supremo, Lénine, que terá dito que “a mentira é a principal arma do combate bolchevique”.
Fez história.
E fica o registo de uma deputada de 26 anos que, entre conhecer o lado negro (milhões de mortos, países que funcionavam como um gigantesco campo de concentração onde qualquer dissidência era tratada policialmente) da ideologia que defende e “tanta outra coisa”, hesita… Uma patarata com assento parlamentar, é o que é.
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Publicado por fsantos em Segunda-feira, Outubro 19, 2009
Para comemorar os 100 anos do façanhudo evento que abriu caminho para o período mais reles da nossa história, nada como dar um bom exemplo da tão propalada ” ética republicana” e adjudicar por ajuste directo – e pela módica quantia de 99.500€ – o notável trabalho descrito como “Prestação de serviços de degign [sic!] com vista à criação e desenvolvimento do Portal Centenário da República”. Ora, o dito trabalho consistiu em pegar num template já existente (nesta página) e adaptá-lo ao dito portal. Pimba, já está: meia dúzia de minutos na net a escolher o template mais catita – e dá cá 100 mil dele, ó preclaro e munificente estado republicano!
A história está muito bem resumida no Cocanha (recomenda-se a leitura de todos os links).
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Publicado por fsantos em Domingo, Outubro 18, 2009
Na segunda parte da entrevista de José Hermano Saraiva ao Sol, por ocasião do seu 90º aniversário, o historiador mais uma vez ajuda a causa da verdade relativamente ao mito Aristides Sousa Mendes. Num processo sórdido que até envolveu a subtracção de documentos do Ministério dos Negócios Estrangeiros, documentos esses que mais facilmente ajudariam a demolir o mito, não é fácil ajudar a desfazer uma história que ainda por cima contribui para denegrir mais uma vez Oliveira Salazar.
Lemos, assim, na página 40 do suplemento “Tabú”:
- Nas suas Memórias provocou um grande escândalo ao dizer que Aristides Sousa Mendes não foi o herói que fizeram dele, e até levantou dúvidas sobre as intenções daquilo que se considera o seu grande papel na salvação de vidas. Em que é que se baseou para fazer esse outro retrato de Aristides Sousa Mendes?
-Quando advogado, eu almoçava todos os dias num restaurante numa rua da Baixa, onde se comia muito bem, e travei relações com um homem que tinha sido subinspector da PIDE e que fora demitido. Tornara-se solicitador – um solicitador não encartado – e ajudava muitos advogados. Esse homem contou-me que tinha sido demitido por causa do processo do Aristides. Ele e outro inspector fizeram um cambalacho com uns passaportes falsos que venderam muito caro. Mais tarde, o Eng. Leite Pinto antigo ministro da Educação, contou-me que, quando era administrador dos caminhos-de-ferro da Beira, Salazar lhe pediu para fazer uma operação-mistério, de grande porte, que era transportar da fronteira de Irun para Vilar Formoso milhares de republicanos espanhóis e judeus que lá estavam acumulados e que o Franco, se os apanhasse, matava. E que, se lá ficassem, eram mortos pelos apoiantes do Hitler. Então, os comboios do volfrâmio, que iam para lá selados, eram despejados em Irun e recarregados com os refugiados, que eram despejados em Vilar Formoso. Daí eram levados para várias terras – uma delas, as Caldas da Rainha, onde toda a gente sabe que estiveram um mês. Ao fim de um mês tinham de ir à sua vida. De facto, qual era a possibilidade de um cônsul, um simples cônsul, mobilizar meios para transportar 40 mil pessoas através de um país hostil? Como é que isso seria possível? Só era possível para uma organização estatal, como é evidente. Mais: não há nenhum documento do Aristides que diga isso, não há nenhum. E ele nem sequer foi demitido, porque era monárquico, era irmão do César de Sousa Mendes, que tinha sido ministro juntamente com o Dr. Salazar, ministro dos Estrangeiros. Tinha uma carreira obscura, já com vários processos disciplinares. Naquela altura estava em Bordéus, que era um consulado sem grande importância, tinha uma família numerosa e dificuldades económicas. Fizeram umas centenas de passaportes, que venderam, até que a PIDE deu por isso. Acontece que um dos beneficiários dos passaportes, um judeu, soube que tinham sido salvas 40 mil pessoas e concluiu que o haviam sido pela mesma porta dele, pelo cônsul de Bordéus, e veio dizê-lo. E isso foi aceite imediatamente, sem a mínima investigação…
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Publicado por fsantos em Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Não é patodos, pá, esta capassidade de renuvar a língua tuga! É nesseçário ter uma visaum revolussionária, que revolva conxiências e cumudismos de um paiz atrazado, que tardô em compriender o sucialismo.
Só uma peçoa com capasssidade de chorar o seu aspirador cuando se avaria e fica bom para o licho é que tem dixernimento para dinamitar essa coiza arcaica que é a ortugrafia, a gramática e outras pesseguices que os reassionários monges da tenebroza idade média nos legaram.
Tudo o que vem de um paçado em que as ideias de esquerda não predominaçem deve ser corrompido, destruído, demolido, derruído – como diria a minha crida Maitê: cuspido! Pa construir é perciso destruir.
É deça taréfa revolussionária de que nus sentimos imbuídos. Que cada furmiguinha da revolussão tenha da língua direito ao livre uso e livre porte. Ao freeport, em suma.
(Via Perspectivas.)
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Publicado por fsantos em Quinta-feira, Outubro 8, 2009
Faz hoje cinco anos que nasceu o “Santos da Casa”, o meu primeiro projecto blogosférico, que esteve albergado inicialmente no Weblog e depois no Blogger. Seguiu-se-lhe o Horizonte e finalmente este Odisseia.
Com um click nas imagens abaixo pode aceder aos referidos blogues, consultar os seus arquivos, ler e reler alguns dos textos mais interessantes.
A todos os leitores e amigos, aos mais antigos e aos mais recentes, o meu obrigado pelo apoio que sempre testemunharam, especialmente em momentos de maior desânimo da minha parte.



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Publicado por fsantos em Terça-feira, Outubro 6, 2009
“Change!” A palavra mágica obamiana encheu os ouvidos dos norte-americanos e não só durante a campanha eleitoral que conduziu Barack Obama à presidência dos EUA. Numa campanha mediática a nível mundial sem precedentes na história da humanidade, de verdadeiro culto da personalidade à boa maneira do culto a Estaline e a Mao-Tsé-Tung, um político de que pouco se sabia (inclusive sobre as suas origens…) é conduzido ao pináculo da política norte-americana.
As massas mundiais exultaram de alegria ao mote da “mudança”. Pelas faces dos escravos modernos aljofararam lágrimas de incontida emoção! Se é certo que mais de metade das pessoas que acompanham a política mundial estava farta do consulado de Bush Jr., não deixa de ser espantosa a unanimidade em torno de alguém que, para chegar onde chegou, só pode ter feito compromissos que, convenhamos, desde logo impossibilitam ou dificultam em muito a tal “mudança”.
Isso vê-se em particular na política externa. Nada de novo no Afeganistão, nadinha de novo no Médio Oriente (Palestina e Irão). E, como excelente exemplo da pusilanimidade destes políticos actuais, tão cheios de verborreia quanto são desprovidos de verdadeiras ideias e princípios, este facto: «é a primeira vez, em 18 anos, que o Dalai Lama não reúne com o chefe da Casa Branca durante as visitas a Washington».
Em alguma coisa Obama teria que se mostrar original…
Publicado em Dalai Lama, George Bush Jr., Obama, politicamente correcto | Tagged: Barack Obama, Dalai Lama, George Bush Jr., politicamente correcto | 4 Comentários »
Publicado por fsantos em Quinta-feira, Outubro 1, 2009
Cavaco já enviou os parabéns a Hu Jintao. Os jornais, em geral, falam da segurança apertada em torno das comemorações dos 60 anos da implantação do comunismo na China. Os maoístas chamam-lhe “libertação”. Por cá houve muitos, sobretudo em 74-75, quando a Grande Revolução Cultural Proletária entusiasmou jovens burgueses ocidentais, com epicentro na França (sempre o centro das aberrações ideológicas) e réplicas em Portugal. O filme “A Chinesa”, de Godard, alimentou os sonhos de instaurar um regime maoísta na Europa. Em prol do “homem novo”, muitos desejaram que por cá houvesse purgas monstras, humilhação pública de reaccionários, destruição do património cultural, demolição de igrejas – e assassinatos em barda.
Até Luis Buñuel, que não sendo comunista nutria alguma benevolência pela ideologia mais assassina da história, notava: «em Paris (em Maio de 68) os estudantes miavam (sic) “Mao, Mao”, como se realmente pretendessem a implantação de um regime maoísta em França».
Por cá faziam furor os filmes chineses (todos produzidos sob o rigoroso controlo da sra. Mao). Algumas das sessões acabavam em cenas de pancadaria. Ninguém queria ser menos comunista que o vizinho!
Tudo isto seria cómico se não fosse trágico. O aggiornamento de tantos entusiastas da época não se traduziu em muitos casos em arrependimento sincero. É vê-los por aí, com tiques na linguagem, com atitudes eivadas de mal disfarçado espírito totalitário. E, sobretudo, todos com sentimentos internacionalistas, sendo a União Europeia o substituto (imperfeito?) para as suas frustrações pós-Mao e pós – queda do Muro de Berlim.

Sobre os crimes do comunismo, e do maoísmo em particular, nem um pio. Nada de trabalhos forçados. Nada de execuções sumárias. Nada de experimentações sociais e económicas (que geraram amiúde fomes e morte por inanição a milhões de pessoas). Nada de Tibete (afinal, uma região – já não um país – pejada de monges retrógados). Nada de produtivismo, que subjuga por inteiro o homem – feito escravo – aos objectivos de crescimento económico definidos pelos “sábios” do comité central. Nada da urbanização desenfreada, com todos os problemas de desenraízamento, miséria, poluição. (Honra ao “i”, que sem meias tintas fala de Mao como “o assassino”.)
Nixon (a primeira abertura) e Bush pai (concessão do estatuto de “nação mais favorecida” no âmbito do comércio externo dos EUA) deram à China comunista o impulso para um crescimento baseado na exploração do homem, em gritante contraste com o hipócrita lema do comunismo: eliminar a dita exploração!
A China cresceu, tornou-se respeitada e temida. Continua um regime repressivo. O Ocidente cresce cada vez menos e torna-se cada vez mais repressivo. Ultrapassado no crescimento, o Ocidente vai a caminho de se aproximar cada vez mais da China no que às liberdades (à falta delas) diz respeito.
E ainda dizem que o comunismo morreu em 1989.
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Publicado por fsantos em Segunda-feira, Setembro 28, 2009
A infância a que remete Tintin é para nós uma pátria perdida. Sabemos que aqueles que crêem são sempre traídos, que aqueles que se batem são sempre abandonados. Nós somos alguns a passar a mensagem. Nenhuma causa é justa, militamos a favor de imposturas. Retirámo-nos. Que o jogo continue sem nós. Como diz Céline, «o combate contra os mitos do tempo tornou-se impossível. Fazer de D. Quichote seria grotesco». Que D. Quichote regresse ao seu lar. O que nos agrada nos álbuns de Tintin não é Tintin mas o que resta quando Tintin desaparece: o anti-conformismo que não envelhece com as suas revoltas e que tem a coragem de as transformar em extravagâncias. Os nosso gestos irrisórios agitam-se burlescamente. Não iremos quebrar o espelho das nossas comédias. Simplesmente deixaremos de olhar para ele. Não há motivo para fazer caretas. Isso seria uma vaidade fatigante.
Pol Vandromme (1927-2009), “Le monde de Tintin” (1959).
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Publicado por fsantos em Quarta-feira, Setembro 16, 2009
A demagogia é inerente à democracia. Baseando-se o poder no número de votos obtidos, todos os partidos procuram atrair eleitores. Os maiores partidos fazem-no por meio de promessas, os mais pequenos pela força da mensagem de ruptura – o que é facilitado pelo facto de provavelmente não serem eleitos e, mesmo que conseguissem um ou outro lugar no parlamento, por não terem meios de implementar o que proclamam.
Para estas eleições temos um PS apostado em fazer esquecer as promessas que rapidamente fez cair (da não subida dos impostos ao referendo sobre o Tratado de Lisboa, passando pela criação de 150 mil novos postos de trabalho), as medidas que chocaram a população (o fim das urgências em inúmeros centros de saúde, por exemplo) ou que antagonizaram grupos profissionais (professores). Num país tão anestesiado como o nosso, já poucos se lembram da promulgação da lei do aborto, quando a anterior lei contemplava muito razoavelmente três situações de excepção à sua proibição. E, com o ritmo de caracol do nosso sistema jurídico, pelo mesmo caminho irão os escândalos em que Sócrates está envolvido.
O PSD aparece com um discurso menos polido do que o habitual, fruto da maior frontalidade (e quiçá impreparação mediática) de Ferreira Leite, que pode algo exageradamente fazer crer que estamos na presença de uma segunda Mrs. Thatcher. Presa do aparelho e tendo que fechar os olhos a algumas situações que certamente não são do seu agrado, ainda assim tem assumido sem tergiversações a sua oposição aos projectos faraónicos em que os socialistas estão empenhados (e querem empenhar o futuro do país), pondo o dedo na ferida dos interesses espanhóis e seus serventuários deste lado da fronteira (custa-me escrever “portugueses”), o que se saúda.
Do CDS pouco se pode esperar de novo e benéfico. O dom da eloquência de Portas não consegue disfarçar o seu oportunismo, as suas convicções frágeis, os podres do passado e a flutuação da sua agenda ao sabor das conveniências.
À esquerda, o BE parece assustado com a possibilidade de deixar de progredir nas votações à medida que, conquistadas as franjas mais radicais do eleitorado, se constate ser difícil atrair votantes mais “moderados”. E para agradar a estes arrisca-se a perder votos dos primeiros. O PC deve consolidar a sua votação, sem grandes sobressaltos, beneficiando talvez marginalmente da situação económico-social.
Também pouco de novo nos pequenos partidos, desde a pseudo-irreverência do PCTP, partido herdeiro de uma ideologia que não tolerava qualquer irreverência, ao PNR. PNR que continua a bater na tecla da imigração, problema real mas que não é o mais grave que enfrenta a sociedade portuguesa na actualidade. E a associação criminalidade-imigração é simplificadora pois há também altos índices de criminalidade em regiões do país onde a imigração tem pouca expressão. Do ponto de vista económico quase todas as suas propostas são impossíveis de aplicar à luz dos acordos comerciais existentes ou da legislação actual. Ainda assim, é o único partido que claramente se declara pela independência nacional.
Para terminar esta breve nota sobre o circo eleitoral, como não evocar o palhaço de serviço, um candidato de um partido dito monárquico que pretende… “ajudar a república”?
Portugal bateu mesmo no fundo.
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