Alexander Solzhenitsyn (1918-2008)

Segunda-feira, Agosto 4, 2008

Faleceu, aos 89 anos, o homem que melhor denunciou o sistema concentracionário soviético, que se manteve muito para além de Estaline. Tendo vivido por dentro o horror do gulag, Solzhenitsyn mostrou a força da (sua) literatura na denúncia dos horrores do comunismo, voluntariamente suavizados ou mesmo negados por gerações de intelectuais ocidentais aburguesados.

Exilado no Ocidente, Solzhenitsyn não se revelou um propagandista do mundo que o acolheu, antes denunciando o vácuo espiritual e o materialismo do “mundo livre”. Após a queda do comunismo, os seus constantes apelos a um regresso ao melhor da Tradição e ao um ressurgir espiritual do mundo foram acolhidos com desdém pelos fazedores de opinião e novos escravizadores das massas (não era Estaline que dizia que a cultura era a engenharia das almas?), mostrando que, se o sistema político comunista se desmoronou, os seus tiques totalitários e a sua vontade de controlar as mentes estão mais fortes do que nunca no campo que o combateu.

Solzhenitsyn viveu e morreu em mundos nos quais não se reconheceu, que combateu pela pena e que o desprezaram. Parece ser esse o destino dos homens livres.


A queda dos muros

Terça-feira, Julho 29, 2008

Lentamente (demasiado lentamente) os muros do silêncio e da mentira vão caindo. O tempo vai passando e há cada vez mais espíritos livres que vão falando do que era proibido falar até há pouco. Por cá, Salazar e a descolonização, lá por fora os mitos da Segunda Guerra. Em todo o lado, a acção das maçonarias e das organizações mundialistas que comandam na sombra.

O silêncio que se abateu sobre artistas malditos também vai derruindo: Céline, por exemplo, é hoje um autor admirado por pessoas de todos (ou quase todos) os quadrantes ideológicos.

Até que ponto é que as gerações marteladas pela imbecillentsia reinante conseguirão pensar pela própria cabeça, até que ponto é que historiadores realmente livres poderão desenvolver as suas investigações e publicar os resultados das mesmas, até que ponto é que ainda existirão jornalistas de coragem - é uma das grandes incógnitas da nossa era. É nessa capacidade de homens livres de resistirem ao rolo compressor do espartilho mental que nos querem impor que se jogará o futuro da inteligência e a sobrevivência da nossa civilização.


Cinco anos…

Terça-feira, Julho 29, 2008

… é muito tempo para se conseguir manter um blogue de altíssimo nível. Conseguiu lá chegar o Bruno e festejá-lo-á depois de amanhã o Azinhal. Contra a cretinocracia e a acção anti-nacional que tomaram conta deste infeliz país, muito aprendemos com estes blogueiros.

Mais do que eles, nós é que estamos de parabéns por os podermos ler, embora cada vez com menos frequência o Bruno e sem o podermos comentar o Manuel - nem tudo é perfeito.

Ainda longe de chegar aos cinco anos, o Réprobo fecha a loja, deixando a blogosfera sem as suas análises históricas ou as suas preciosas recensões de livros antigos. Daqui por uns meses ele está de volta.


Boletim Evoliano

Quinta-Feira, Julho 24, 2008

Está já online o número 3 do Boletim Evoliano, um dos projectos mais originais e singulares surgidos nos últimos tempos. Neste número podem ler um texto sobre “Evola e a liberdade”, um texto do mestre sobre “fidelidade”, outro sobre “A Ordem da Coroa de Ferro” e ainda um sobre a Acha como símbolo da Tradição. Remata o número uma evocação sobre dois mártires do Ideal: José Antonio e Codreanu.

A ler, guardar e divulgar.


“O meu irmão é filho único”

Terça-feira, Julho 22, 2008

Vi ontem o filme italiano “O meu irmão é filho único”. Trata-se de uma obra muito interessante, cuja acção se desenrola nos turbulentos anos 60. Dois irmãos, Manrico (um nome cuja conotação verdiana não será ocasional, até pela forte ligação que tem à mãe, evocadora de Il Trovatore) e Assio, um comunista e o outro fascista (este, militante do MSI), digladiam-se amiúde, inicialmente por motivos familiares, depois por motivos políticos e finalmente por motivos amorosos (ambos gostam da mesma mulher, também militante comunista). Vivem na cidade de Latina, burgo fundado pelo fascismo em 1932 com o nome Littoria (adoptou o nome actual em 1946).

Há alguma tendência para a caricatura das duas posições políticas, nomeadamente, como era de esperar, a fascista: os militantes missinos aparecem como não especialmente evoluídos, com uma forte tendência para a pancadaria e os desacatos contra os comunistas; Mario, o vendedor de atoalhados que inicia Assio nas virtudes do regime mussoliniano (”deves fidelidade aos amigos, fidelidade à Pátria e fidelidade à Ideia”; “Il Duce tirou aos ricos para dar aos pobres, alguma vez alguém fez isso?”), expressa o seu fervor ideológico por meio de fórmulas curtas, não elaborando o discurso. Não falta, no filme, a peregrinação a Predappio, local onde nasceu o Duce

Mas os comunistas também não são especialmente favorecidos, de que o exemplo (de um cómico impagável) é o coral do último andamento da Nona de Beethoven (em execução para as massas, pois “a arte individual é simples masturbação”, grita Manrico), em que a Ode à Alegria de Schiller é “desfascistizada” (sic!), substituindo-se-lhe uma ode aos grandes líderes comunistas, de Mao a Estaline!

Fidelidade não é o forte de Assio, que rompe com o fascismo de uma forma violenta. A sua preocupação de infância, “aiutare i ultimi” (auxiliar os mais desfavorecidos), não lograda via fascismo nem via comunismo, tem a sua consecução num acto apolítico mas extremamente eficaz em termos sociais. Uma conclusão que não agradará aos ortodoxos de ambos os campos mas que o filme caracteriza com mestria e alguma poesia contida.

Não sendo uma obra-prima, “O meu irmão é filho único” é uma película a não perder, pelo retrato de uma época conturbada, pelos dilemas de uma juventude, pelos dramas sociais não resolvidos pelo boom industrial italiano do dopoguerra, por momentos de humor irresistíveis, pela interpretação soberba dos actores e por jorrar italianidade por todos os poros.


Fim da linha para Karadzic

Terça-feira, Julho 22, 2008

A notícia da prisão de Radovan Karadzic é uma boa notícia. Não era o único carniceiro da Guerra dos Balcãs ainda a monte mas era um dos mais notórios, um paranóico que até mandou pelos ares a própria casa que tinha em Sarajevo, que ajudou a manter o abominável cerco a esta cidade e que promoveu a chacina de Srebrenica.

Foi, com Mladic e Milosevic, um dos responsáveis pela radicalização islâmica na Bósnia, fornecendo condições para que os EUA (e a Arábia Saudita) aumentassem a sua influência nesta parte da Europa. E, claro, contribuiu como poucos para sujar a palavra “nacionalismo”, contribuindo e de que maneira para o rápido progresso da ideologia mundialista na última década e meia. Foi, em suma,  além de um assassino, um idiota útil.

É triste que as autoridades sérvias o tenham detido porque tal é condição para se debater a adesão deste país à UE. Pode-se dizer que a prostituição política com o advento da UE se tornou uma forma de vida para os políticos europeus com ambições (e sem princípios).


“Check list” da morte de uma Nação

Segunda-feira, Julho 21, 2008

Baseado em inúmeros case studies (como se diz hoje em dia), no futuro qualquer plano de aniquilação de uma Nação deverá contemplar os seguintes passos (lista não exaustiva e não necessariamente a seguir pela ordem abaixo):

- retirar-lhe a soberania política, integrando-a numa unidade supra-nacional;

- retirar-lhe a soberania económica, retirando-lhe as políticas monetária e cambial e, cereja no topo do bolo, fazendo-a adoptar uma moeda comum ao citado espaço supra-nacional;

- afogá-la sob um fluxo de imigração, de preferência de outros continentes e culturas, propagandeando as alegadas vantagens da miscigenação;

- massacrar os habitantes com uma ideologia única e dominante, caricaturando todas as ideias que se lhe oponham; aquela deve ser de feição mundialista, anti-Nacional e anti-Tradição;

- implementar uma agenda de transformação social, não de base económica mas comportamental e ética (ou falta dela): promoção do aborto, a eutanásia como algo natural ou mesmo desejável, a homossexualidade como uma simples orientação pessoal, as drogas como uma simples escolha, o repúdio da família tradicional e a adopção de comportamentos que choquem os mais velhos;

- cúmulo desta tarefa hercúlea mas, como se sabe, perfeitamente exequível, assassinato da língua nacional, seja pelas alterações ao longo de gerações de promoção da deseducação nacional, seja por decreto.

Esta é um roteiro para a morte das nações, definido há muito e posto em prática com método e, desgraçadamente, com impressionante eficácia. A partir do momento em que se derrubou a ordem antiga, baseada em valores nacionais e espirituais, e se erigiu o poder da matéria, com o dinheiro em primeiro plano, estava criada a base para o resto do plano, acima esboçado.


Sem vergonha

Sexta-feira, Julho 18, 2008

Neste Portugal pequenino e dos pequeninos que nos desgovernam há muito que se perdeu a vergonha. Corrupção e crimes, desde que praticados por quem detém as rédeas do poder ou alimenta quem as tem, são sempre ilibados. Ao mesmo tempo, o Estado trata os cidadãos (ver postal anterior) como potencialmente culpados, até que se prove o contrário.

Extorquir os incautos é palavra de ordem, amealhar à custa deles e das tropelias - uma prática que já mal se dá ao trabalho de se ocultar.

Para contrapor este desgoverno a que a população assiste bovinamente servem-se doses maciças de anti-fascismo, de pura e completa manipulação da história recente, para que todos se convençam de que as coisas hoje vão muito melhor que nos tempos da “longa noite”.

E os ignaros, convencidos e, afinal, resignados a aturar “algo que é menos mau”, sempre se vão contentando com os ecrãs de plasma, a ida ao shopping, o telemóvel de última geração e os dramas das quatro linhas.

A democracia arrasou qualquer princípio de dignidade a este país e rebaixou-nos a uma posição aviltante. Mas certamente condescenderá em atribuir-nos pena suspensa…


O cidadão

Quinta-Feira, Julho 17, 2008

Talvez por (insensatamente) achar que Portugal tem salvação, nunca me refiro com desdém a “este país”, mencionando antes “este regime”. Mas também reconheço que isso é redutor, pois se um regime hediondo se vai mantendo deve-o seja à estupidez, seja ao conformismo, seja à desonestidade dos que habitam o país.

A revolução francesa criou o “cidadão”, figura abstracta plena de direitos teóricos e vítima da ditadura prática da democracia, que ostraciza todos os que a ela se opõem. Vítima também do desenraízamento, limpo que foi o seu passado histórico e reescrita a gesta dos seus antepassados, de modo a legitimar mais facilmente a república dos cidadãos.

Ao fim de gerações, os cidadãos estão inoculados mentalmente com o vírus da verdade oficial, apatetados pela lavagem cerebral permanente a que são sujeitos. E, em consequência, completamente incapazes de reagir a um regime hediondo - precisamente por que não o vêem como tal. Tal como Winston Smith, amam o Grande Irmão, “reconhecem” que a democracia é o menos mau dos regimes e seguem com a sua vidinha.

O cidadão é o escravo perfeito.


A (quinta da) fonte dos problemas

Terça-feira, Julho 15, 2008

Após semanas de trabalho intenso, que pouco tempo livre me deixaram para blogar, aproveitei para gozar umas mini-mini-férias, longe de computadores e net, sem pegar em jornais nem ver televisão. Descansar do trabalho - e do país (ou do que resta dele).

De regresso à labuta e aos problemas, destaca-se na actualidade a guerra civil num subúrbio de Lisboa, palco de afrontamentos entre ciganos e africanos, que meteu feroz tiroteio, oportunamente captado por câmaras de televisão, que impediram que o governo e as boas consciências anti-racistas abafassem o problema.

Se bem que do caso sobressaia a questão da imigração, em particular de alguns dos seus efeitos, há outros factores a ter em conta:

- a ausência de segurança em largas áreas urbanas de Portugal;

- o crescimento ao longo de décadas de bairros a que com mais propriedade se chamaria anti-sociais, com interessante incidência em diversos concelhos que durante muito tempo foram (ou são ainda, como Almada) de maioria comunista (que pratica(ra)m a replicação dos insalubres e deprimentes blocos de apartamentos onde os dirigentes da Europa de Leste enclausuraram o desgraçado do “homem novo”);

- a consagração prática da limpeza étnica do bairro em questão, onde a facção melhor armada e preparada para o combate obteve a expulsão do inimigo;

- o contraste brutal entre, por um lado, país político e país real e, por outro, o mundo das ideologias distanciadas das realidades e a realidade da coexistência de comunidades que se detestam e são forçadas a coabitar.

E, claro, temos a questão da imigração desregrada e do amaciar do pelo dos “coitadinhos dos imigrantes que nos demandam em busca de uma vida melhor que muitas vezes é negada pelos malandros dos autóctones”, alvo de todas as compreensões e desculpabilizações, de que o expoente máximo foi a ridícula visita de Jorge Sampaio à Cova da Moura após o arrastão de Carcavelos, há dois anos. Na altura o presidente da república procurou saber (quiçá pedinchou) junto do embaixador de Cabo Verde se a sua segurança estaria assegurada. Como é que se pode esperar que “eles” nos respeitem se o principal órgão de soberania se degradou e desqualificou aos seus olhos, envergonhando o país e dando a entender que este é território ocupado: por meliantes - muitos deles imigrantes (envergonhando também os imigrantes honestos e trabalhadores) - e por pulhíticos que parecem apostados em liquidar o que resta do que em tempos foi um grande país, digno e de elevados horizontes.


Museu Salazar

Segunda-feira, Julho 7, 2008
Concorda com a instalação de um museu dedicado à figura de António Oliveira Salazar em S. Comba Dão?
1 - Sim  61%
720 votantes
2 - Não  39%
467 votantes
Total de votantes: 1187

(Sondagem em curso no site do Público, já após o meu voto no “sim”. Via Alma Pátria.)


Não há guerrilha como esta!…

Quinta-Feira, Julho 3, 2008

… glosando o lema da Festa do Avante! No dia em que Ingrid Bettencourt e outros reféns das FARC foram libertados, será interessante voltar ao tema da participação do grupo terrorista na festa do PCP.

Lendo alguns blogues afectos ao partido, “ficamos a saber” que as FARC não participaram na Festa, nem muito menos foram convidadas. O que por lá apareceu foram jornais da filantrópica organização no stand do Partido Comunista da Colômbia!

Ficamos descansados! Afinal, o PCP mostra a sua verdadeira face democrática, promovendo a liberdade de expressão até de organizações cuja conduta veementemente condena…


São Paulo

Terça-feira, Julho 1, 2008

São Paulo deve ser das cidades mais contrastantes em todo o mundo. Nesta imensa urbe que, com os subúrbios, alberga 18 milhões de pessoas, cruzam-se povos das mais diversas origens e pessoas das mais variadas condições sociais. Contrastam igualmente as edificações sumptuosas - algumas delas extremamente ousadas do ponto de vista arquitectónico, como a nóvel ponte Octávio Frias de Oliveira, na foto - com as malfadadas favelas que, por aqui, são em tijolo, algumas delas encimadas por antenas parabólicas…

A cidade é o motor económico do imenso país, onde as principais empresas e indústrias se concentram, onde as tecnologias de ponta e o melhor da intelectualidade (em sentido lato, incluindo empresarial) brasileira se revelam. Uma cidade onde um dos melhores bairros, o Morumbi, tem como “vizinha” uma imensa favela; ou onde se localizam alguns dos melhores restaurantes do mundo, bem perto da “mala vita” da zona da Sé.

A Sé, que devia ser a principal atracção turística da cidade, é uma zona que, a partir do anoitecer, se deve evitar em absoluto: o turista incauto sente-se rapidamente ameaçado pelas hordas de mendigos e drogados que por lá circulam, bem junto ao monumento ao evangelizador Anchieta e ao Colégio dos Jesuítas. O local onde nasceu a cidade é aquele onde ela mostra, actualmente, a sua pior face.

Não muito longe dali, o magnífico Teatro Municipal, num estilo que faz lembrar a Ópera de Bilbau, apresenta de momento “Madama Butterfly”, a ópera de Giacomo Puccini de forte inspiração temática e musical japonesa. Excelente escolha no ano em que se comemora o centenário do início da imigração japonesa (o primeiro barco com naturais do país do Sol Nascente chegou ao porto de Santos em 18 de Junho de 1908), comunidade que tanto contribuiu para o progresso do país, ao mesmo tempo que soube manter a sua identidade, espelhada por exemplo no facto de ser aquela que menos se mistura (menos de 20% de mestiços após cem anos) ou na forma como o Bairro da Liberdade mantém um forte ar oriental, nas lojas, nas construções, na iluminação pública.

O europeu estranha uma urbe com poucas praças, sucedendo-se os cruzamentos entre largas avenidas, apinhadas de carros apesar do sistema de rodízio (proibição de circular a determinados números de matrícula) vigente nas horas de ponta. O trânsito, a par do futebol, é o tema de conversa mais recorrente entre os paulistas. Numa tarde de sexta-feira pode-se gastar entre duas a três horas a atravessar a cidade.

No futebol, o Estado de São Paulo - na prática, a cidade de São Paulo mais o Santos FC - mantém a hegemonia dos títulos recentes. O clube que dá nome à cidade tenta defender o tricampeonato, sendo o Palmeiras (clube fundado pela comunidade italiana) um forte oponente (conquistou, alías, o estadual deste ano). A Portuguesa regressou este ano à elite e está a bater-se bem. Já o clube com mais adeptos (e segundo neste capítulo a nível nacional, atrás do Flamengo), o Corinthians, amarga na Segundona (onde lidera), para gáudio dos restantes, que lhe votam um ódio de morte. Os estádios por aqui raramente enchem (impressiona ver o Morumbi - magnífica casa do São Paulo FC - com pouco mais de dez mil pessoas em boa parte da época), possivelmente por causa da insegurança, que acantona os adeptos ao sofá em dia de jogo.No Brasil não há grandismos, sendo os clubes respeitados por igual, nomedamente nos media. Um histórico como o Bahia, que amargou dois anos na Terceira, teve sempre o devido destaque, até pelo facto de ter sido há dois anos o clube com melhores assistências em todo o Brasil! É, aliás, o Norte e o Nordeste que têm os adeptos mais fiéis e fanáticos (clubes como o Santa Cruz de Recife ou o ABC de Natal arrastam verdadeiras multidões, seja qual for a divisão em que actuam).

A herança italiana em São Paulo é notória, não só pelo Palmeiras, como pelos centros culturais (um sediado no magnífico Edifício Itália, que tem um terraço a alturas do 41º andar com uma vista extraordinária sobre a cidade) ou até por certos perfis que não enganam: a mulher paulista é um regalo à vista!

Na urbe de 18 milhões de pessoas, um terço é de origem nordestina, quase todos mestiços (pardos, como por aqui se diz). Nos restaurantes da moda, nos shoppings que se multiplicam como cogumelos, ou nos centros empresariais praticamente não se vêem: nestes locais os brancos representam a quase totalidade das pessoas (pouca gente, fora do Brasil, sabe que exactamente 50% da população é branca, 39% mestiça, 6% negra, 1% japonesa, entre outros) - com a imigração que tem entrado na Europa quase diria que esses locais são, etnicamente, bem mais europeus que muitos locais congéneres do velho continente!

De qualquer modo, e é apenas uma impressão imperfeita de quem começa a conhecer a cidade, nos contactos que tive e que testemunhei não me apercebi de qualquer racismo, bem pelo contrário, a urbanidade no trato entre os brasileiros não parece ter barreiras. Ao contrário do parece suceder no Rio, onde a elite económica branca nutre um profundo desprezo por negros e mestiços.

No meio de tanta construção, de tantos prédios altos e de favelas a perder de vista, é um regalo passear pelo Parque do Ibirapuera, verdadeira jóia verde no coração da cidade. Uma cidade que, primeiro, choca pelo contraste, que depois se começa a apreender e a compreender, e que acaba por cativar e deixar saudades cada vez que se empreende o regresso de dez horas de avião à Mãe Pátria que certo Pedro decidiu desligar do imenso território que é por si um continente. E um mundo.


Céline: os últimos segredos

Sábado, Junho 21, 2008

A revista Lire acaba de publicar um número especial integralmente dedicado à figura e à obra de um dos mais geniais escritores do século XX, Louis-Ferdinand Céline.

Trata-se de um número magnífico, em que se procura simultaneamente enquadrar a figura e a sua obra - o que é o ideal para os iniciados -, ao mesmo tempo que se aprofundam outras facetas e detalhes históricos, que surpreenderão mesmo os célinianos mais fanáticos! Tudo recheado de belas fotografias, de que destaco a extraordinária foto a cores, de página inteira, que mostra Céline e Marcel Aymé conversando sentados debaixo de uma árvore. Dois gigantes! Também não falta a famosa fotografia de Céline junto a Mussolini, por ocasião de uma recepção do Duce a uma delegação de médicos da Sociedade das Nações, de que fazia parte Céline.

Começando por algumas curiosidades, a Lire fala-nos dos preços incríveis que atingem obras de Céline em leilão, desde os 2000 euros pelo livro médico “La quinine en thérapeutique” (de 1925) aos 2 milhões de euros (!) por que foi vendido o manuscrito de “Voyage au bout de la nuit”! Outra, conhecida dos célinianos, foi a nomeação de Céline por parte do Presidente Laval para governador do pequeno território de Saint-Pierre et Miquelon… Mais à frente podemos ver a reprodução de um retrato do artista quando jovem, em 1916, obra de uma admiradora.

Curiosa também a citação de “Les Beaux Draps” em que Céline preconiza a aplicação da semana de trabalho de 35 horas, algo posto em prática pelo PSF há meia dúzia de anos… E sabia que a expressão “bla, bla, bla” foi inventado pelo bretão Céline? Pois ela surge em… “Bagatelles pour un Massacre”, o panfleto que tornou Céline maldito! E sabia que Jim Morrisson, o vocalista dos The Doors, era um admirador da obra céliniana e que a hipnotizante canção “End of the Night” (do primeiro álbum, de 1967) é uma referência explícita ao primeiro romance de Céline?!

O biógrafo de Céline François Gibault (a cuja obra já aqui me referi) concede uma notável entrevista em que percorre toda a vida do escritor, mostrando a sua impressionante erudição céliniana. Outra peça notável na revista é um excerto da auto-biografia de um ex-oficial SS amigo de Céline, Hermann Bickler, nem mais nem menos que a pessoa que arranjou o visa necessário para o escritor fugir para a Dinamarca.

Destaque para uma entrevista imprevista coma baronesa de Belleroche, que privou com Céline em Baden-Baden. Nessa época uma vaporosa jovem mulher, que punha os cabelos em pé aos homens que a viam na piscina com um fato de banho diferente todos os dias, Maud de Belleroche namorava com Jean Luchaire, que lhe disse para a deixar, pois com ele ela não teria futuro. Luchaire foi, como sabem, fuzilado após a libertação. Com um sentido de humor contagiante, a anciã que afirma sem rodeios «sim, fui fascista, amo a força da vontade (”la volonté de puissance”)» (a não concordância nos tempos verbais denuncia que o bichinho ainda lá mora…) conta alguns episódios daqueles dias conturbados de 1944.

Temos também uma evocação de Serge Perrault, então jovem amigo do casal Destouches, e que esteve com Céline poucas horas antes da sua morte. Outro dos momentos alto da revista é a reprodução de várias páginas do manuscrito de “Voyage au bout de la  nuit”, que se julgava perdido e que surgiu ao conhecimento público em 2001.

Para os menos documentados em Céline relembra-se o incrível jantar dele e do seu amigo Gen Paul na embaixada alemã, em plena ocupação, em que os dois escandalizaram em absoluto os alemães presentes, ao mesmo tempo que os franceses (entre os quais se contava o ministro Fernand de Brinon) se continham para se não escangalharem a rir com o número de imitação de Hitler por parte de Gen Paul. Se Émile Brami, que escreve a nota biográfica que vem no DVD que o amigo Nonas aqui publicitou, acha que Céline «estava fascinado pelo exército alemão, a sua força e disciplina» e estava perto da ideologia nacional-socialista, não deixa de ser verdade que o espírito anarquista de Céline foi uma constante da sua personalidade e a imagem de marca da sua total independência.

E para quem nunca a leu, publica-se na íntegra a entrevista que relançou Céline em 1957. Foi para a revista de esquerda (!) ”L’Express” e a entrevistadora, Madeleine Chapsal, aceitou recordar para a Lire esse dia inesquecível.

Este número especial é um perfeito regalo que deliciará quem o ler. Os célinianos têm à sua disposição horas de leitura fascinante.


Ingratos irlandeses

Domingo, Junho 15, 2008

A habitual atitude arrogante e complacente dos eurófilos e federastas ficou bem patente nas declarações do MNE francês, Bernard Kouchner (um socialista recrutado por Sarkozy para o seu governo), no apelo ao voto no “sim” no referendo ao Tratado de Lisboa. Afirmou o sr. Kouchner que “o não seria uma atitude ingrata dos irlandeses. Seria muito perturbador se não pudéssemos contar com os irlandeses, que no passado contaram e muito com o dinheiro da União Europeia”. Descodificando: “nós damo-vos a massa e vocês dão-nos carta branca para vos governarmos como nós bem entendemos”.

Um discurso exemplar que caracteriza na maravilha a ideologia contemporânea: os povos abdicam da sua soberania e da sua dignidade em troco de uns euritos de “coesão”. Se isto não é prostituição…

Fosse por perderem um comissário, fosse por rejeitarem o princípio da maioria ou por perderem o direito de veto, fosse também pela crise económica que vai crescendo na Europa, a verdade é que no único país que consultou a população ficou bem à vista o fosso entre o parlamento e o país real, entre os que tentam construir certa Europa nas costas dos povos e a percepção destes de que estão a ser enganados com cantos de sereia.

Gerry Adams, antigo (?) amigo dos terroristas do IRA, disse que o “não” foi uma vitória dos que pretendem uma Europa Social. E, diria eu, de umcerto resquício de orgulho nacional e de espírito nacionalista numa nação independente há menos de um século e já presa das garras do monstro europeu. Em suma, uma curiosa aliança entre resistência ao liberalismo e à mundialização em curso.